As alterações comportamentais e as novas necessidades que vão surgindo à medida que a pandemia da covid-19 avança são o tema abordado pelo vice-presidente da consultora Accenture Portugal, Eduardo Fitas.

À medida que a pandemia vai evoluindo, crescem as alterações comportamentais e as novas necessidades que têm desafiado o nosso quotidiano. Apesar das consequências de longo prazo não serem à priori positivas, a tecnologia tem desempenhado um papel fundamental como catalisador de novas soluções que promovem respostas mais eficientes em áreas chave da sociedade e da economia, abrindo portas para um futuro mais ligado e com um alto potencial de inovação.

Os desafios que vivemos ao longo dos últimos meses foram frequentemente enfrentados com criatividade e níveis muito notáveis de colaboração entre múltiplas organizações, que fizeram uso de inúmeras soluções tecnológicas – algumas das quais evidenciadas no Consumer Electronics Show (CES) de 2021 -, e que corroboram as tendências identificadas pela Accenture ao nível do impacto da tecnologia na pandemia, da aceitação crescente do 5G e da adoção da cloud para melhorar as experiências de tecnologia dos consumidores.

Num período atípico, em que se exigiram rápidas mudanças e adaptações ágeis na economia, a procura pela digitalização foi bastante superior ao normal. A cloud tornou-se numa solução urgente para responder a novas tendências, redução de custos, maior velocidade, confiabilidade, escalabilidade e inovação. Dadas as capacidades e impacto na competitividade das empresas, a cloud é hoje uma das áreas de investimento mais premente no âmbito da estratégia de recuperação pós-pandemia.

Se as empresas passaram a ter as suas operações distribuídas e virtualizadas com os colaboradores em teletrabalho, modelos de integração das cadeias logísticas, produtivas com os seus parceiros de negócio e canais para fazer chegar os produtos e serviços aos clientes ou utilizadores impedidos de aceder aos pontos físicos tradicionais, a necessidade de migração para a cloud é um passo óbvio e obrigatório.

Na indústria automóvel, por exemplo, a cloud tem beneficiado os fabricantes de equipamentos originais (OEMs), melhorando o custo, a eficiência, a escalabilidade e o tempo de chegada ao mercado. Por outro lado, a evolução galopante da tecnologia permite-nos antecipar um conjunto de inovações, nomeadamente ao nível do 5G, que podem ser acompanhadas e potenciadas pelas apostas prévias em soluções de cloud. Esta nova rede permitirá a conectividade móvel entre veículos, a melhoria da segurança e da automação, gestão de frotas e serviços baseados em telemática e sistemas inteligentes de transporte ou gestão inteligente de tráfego. O futuro do setor automóvel e de transporte passa por alavancar a tecnologia 5G para criar veículos seguros e confiáveis, ricos em recursos, ligados e autónomos que se integrem perfeitamente à infraestrutura pública circundante de cidades, periferias e até mesmo zonas rurais.

Já no setor do entretenimento, o mundo dos vídeo jogos caminha em direção a um futuro baseado na cloud e sem consolas. Os jogos na cloud oferecem maior mobilidade e acesso instantâneo para os utilizadores, podendo-se jogar em várias plataformas e evitar o custo com múltiplos hardwares. Os jogos para telemóvel representam já quase metade da receita global da indústria e dadas as evoluções dos novos smartphones, com processadores cada vez mais poderosos, placas gráficas e ecrãs maiores, as empresas do setor tendem a estar cada vez mais na cloud para melhorar a experiência dos seus clientes.

Na verdade, a rede 5G não é uma realidade distante. Por todo o lado, surgem produtos e serviços que vêm comprovar o potencial da tecnologia. Com a velocidade, latência e densidade de cobertura de equipamentos conectados, estão a ser desenvolvidas soluções que transformam a forma como se gere produção em fábrica, como se dá formação, se prestam cuidados de saúde ou até como se tem acesso a atividades de entretenimento e lazer. Com a natural massificação destas experiências, antecipa-se uma nova revolução tecnológica.

Uma nova abordagem de trabalho remoto, tendo por base a conectividade de alta velocidade, está a ser aproveitada pelas famílias, de forma a moverem as suas residências para áreas distantes da sua zona de trabalho. Até para atividades que até ao momento exigiam uma deslocação física, como é o caso dos técnicos de manutenção especializados ou alguns profissionais de saúde, por exemplo, estão a ser promovidos modelos de trabalho remoto tirando proveito dos recursos de latência ultrabaixa do 5G e ferramentas de realidade aumentada, como óculos inteligentes.

Segundo estudos recentes, cerca de 73% dos consumidores globais acreditam que este novo estilo de trabalho remoto lhes dá a liberdade de escolher onde gostariam de morar. Pela primeira vez nos últimos seculos existem condições para voltar a ter uma distribuição mais homogénea da população nos territórios, minimizando a concentração em grandes cidades, com melhorias significativas na qualidade de vida e impactos ambientais verdadeiramente disruptivos.

Apesar da adoção crescente de soluções digitais, e embora o CES seja o epicentro para testemunhar a inovação tecnológica, vale a pena estar ciente das mudanças de perceção sobre a tecnologia. Atualmente, deparamo-nos com uma tendência “Do it yourself” – identificada pela a Accenture Interactive no seu Relatório Anual Fjord Trends para 2021 -, nascida em plena pandemia, e que será cada vez mais impulsionada pelos talentos das pessoas que pensam em novas maneiras de reinventar as suas próprias experiências de vida.

Em todas as casas surgiram soluções alternativas para problemas grandes e pequenos, e os consumidores estão a utilizar a tecnologia para os ajudar a atingir os seus objetivos ou a facilitar questões do dia-a-dia, nomeadamente, as suas formas de consumo.

Também no retalho, a integração de inteligência artificial, recursos na cloud, capacidades de realidade aumentada e conetividade 5G estão a originar uma transformação do setor. À medida que novas tecnologias centradas no ser humano entram no mercado, os retalhistas estão a descobrir casos de uso que lhes permitem diferenciar-se em áreas que estavam cada vez mais “comoditizadas” e fugir assim de uma concorrência exclusivamente baseada em preço, que estava a condenar à morte toda uma cadeia de valor.

Já ao nível da sociedade, deparamo-nos com um conjunto de inovações em tecnologia espacial que possibilitaram a melhoria do acesso à educação em áreas rurais e pobres, combatendo os atrasos significativos na aprendizagem. Organizações como a Accenture Labs, a AID India e a Microsoft Research estão a trabalhar em conjunto para criar e implementar satélites que preenchem a lacuna entre os consumidores rurais e os serviços de media e educação. A solução utiliza satélites, cloud e dispositivos digitais de última geração em áreas remotas para fornecer grandes quantidades de conteúdo a consumidores e alunos. Com modelos semelhantes, estão a ser explorados casos de sucesso na disponibilização de cuidados de saúde a zonas menos privilegiadas, contribuindo mais uma vez para a diminuição de assimetrias na qualidade de vida das populações.

São inúmeros os casos em que a digitalização tem facilitado a gestão de negócios, serviços públicos, privados e vidas pessoais, com a certeza de que o que ocorreu no último ano não é um caso passageiro nem os modelos e experiências completamente reversíveis. Cabe a cada um de nós aproveitar a porta que se abre para a utilização integrada das capacidades tecnológicas disponíveis, estimulando a economia com sinais positivos no PIB, na criação de emprego e na melhoria da qualidade de vida na nossa sociedade de uma forma geral.

Expresso | 10/02/2021 | Eduardo Fitas

Eduardo Fitas

Managing Director – Accenture Portugal

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