A Accenture divulga este mês um estudo que aponta as grandes tendências da área tecnológica a nível mundial. Este estudo será debatido numa conferência que terá lugar no dia 26 de março, com o JE como media partner. O responsável da Accenture Technology, Rui Barros, explica as principais conclusões deste estudo em entrevista ao Decisores, o programa de entrevistas que transmitimos esta sexta-feira às 11h00, no site e nas redes sociais do Jornal Económico.

Os líderes empresariais foram ouvidos neste estudo?

Rui Barros: Ouvimos executivos de topo de empresas, de vários setores e de várias indústrias. Depois é também complementado com analistas internos, tanto da Accenture como internacionais e académicos. Tem uma abrangência global, na medida em que são 27 países, e é muito interessante porque algumas tendências que vimos no passado ocorreram e aconteceram.

O que antecipam este ano?

RB: Antecipámos "o que é a era pós-digital". Ou seja, quando se fala do digital e da sua transformação, a Accenture antecipa que vêm aí novos desafios da era pós-digital. Neste momento, ainda há muitas organizações que estão a fazer este processo. Em breve isso vai deixar de ser um fator diferenciador e antevimos o que vem a seguir à era pós-digital. Nesse sentido, estamos a assistir a uma nova tendência global que está relacionada com a hiperpersonalização da oferta e dos serviços no nosso quotidiano.

No fundo é a customização de tudo aquilo que consumimos?

RB: Exatamente. Essa é uma tendência que se está a verificar a nível internacional. Ou seja, depois da massificação destas tecnologias, consumimos no nosso quotidiano tecnologia e informação customizada.

Como a Netflix?

RB: Sim, por exemplo. Aquilo a que assistimos na televisão e ouvimos na rádio é muitas vezes customizado. Usamos os podcasts para assistir ao que queremos. E isso está a transformar a nossa oferta de produtos e serviços, e existem empresas que já estão a customizar a oferta de roupa associada e personalizada a nível individual. Temos apps que já conseguem medir o tamanho do nosso corpo, por exemplo.

Há setores resistentes a isso?

RB: Qualquer setor que não tenha em consideração o tema da transformação digital e da personalização é um setor que estará em risco. Porquê? É uma tendência que se está a massificar e, se isso não acontecer, deixará de ser competitivo e terá problemas no mercado. Portanto, o desafio não é se vamos transformar o digital, porque isso terá que acontecer, mas o que virá a seguir. Porque se não se fizer essa transformação não poderá ocorrer a era pós-digital e as tecnologias que lhe estão a dar suporte.

O estudo diz que as empresas ainda estão a dar os primeiros passos no novo mundo. O que é que isso quer dizer?

RB: Está a decorrer um processo de transformação digital nas empresas em que todas as suas operações são digitalizadas e automatizadas. Esse caminho não está feito e é um desafio que as empresas mais tradicionais, que não nasceram na era da internet, têm maior dificuldade. Neste momento, as tecnologias que estão a ser alvo destas transformações são as de social media, mobilidade, análise e cloud que suporta esta transformação. Já estamos a assistir a isto no mercado nacional, em que as grandes organizações estão associadas a estas grandes tecnologias. A nível internacional, constatamos que há quatro tecnologias emergentes, relacionadas com blockchain, inteligência artificial, quantum computing e realidade aumentada. Ou seja, antecipamos que estas quatro novas tecnologias, durante os próximos três anos, terão cada vez mais impacto nas organizações e no mercado nacional.

Para as empresas portuguesas, será que isto representa um desafio acrescido ao nível da formação dos quadros e dos líderes? Portugal tem massa crítica suficiente nesta área?

RB: Nos últimos anos, com todas as iniciativas ligadas à Web Summit, ao posicionamento de Portugal como líder de transformação digital e com a dinamização de várias iniciativas, Portugal é um centro de referência de inovação e transformação associado ao digital. Está bem posicionado e tem excelente talento que sai das universidades. Além disso, há que continuar a formar os mais jovens nas áreas tecnológicas e de engenharia, porque essa é a única limitação que poderemos vir a ter no futuro face ao desenvolvimento, à oferta e à capacidade local. Temos de transformar e de ser inovadores nestas áreas.

Há quem diga que o grande desafio de Portugal é o envelhecimento, a desertificação do interior e a curva demográfica que vamos sentir ao longo das próximas décadas. A inovação tecnológica pode ajudar Portugal a lidar com este tipo de problemas?

RB: No Japão acreditam que a tecnologia vai auxiliar a população mais idosa, tudo associado a medicamentos e ao controlo do estado de saúde. Há um conjunto de instrumentos tecnológicos que vão facilitar e ajudar a cuidar dessa população mais idosa. Mas há outro fator muito interessante que temos observado: por Portugal ser um país bastante atrativo começámos a trazer jovens de outras nacionalidades, que se querem instalar em Lisboa e no Porto. Isso será importante para não termos uma população tão envelhecida como temos neste momento.

O futuro passa por menos trabalho em termos de carga horária?

RB: Provavelmente não teremos horário de trabalho e isso já acontece em algumas profissões. O horário é cada vez mais flexível e as pessoas irão trabalhar em função de objetivos e das suas necessidades pessoais e profissionais.

Podemos dizer que estamos na alvorada de uma nova civilização, em que o trabalho é abolido e as máquinas produzem a riqueza?

RB: Isto levanta problemas sérios? Não me parece que estejamos nessa fase. Há alguns desafios de automação e de robotização e atividades de cariz manual que deixarão de existir, à semelhança de revoluções industriais. Mas não vamos deixar de ter trabalho. Vai ser diferente e vamos ter novas formas de trabalhar. O essencial é trabalhar menos horas e ser mais produtivo e é nisso que eu acredito.

Como vê soluções como o rendimento básico universal?

RB: Ainda está a ser estudado em alguns países. É melhor esperar pelos resultados.

Que caraterísticas devem ter os líderes empresariais neste futuro pós-digital?

RB: Nós incentivamos muito a curiosidade e a transformação do fazer novo e diferente. Não nos guiamos pelo passado. Usar a tecnologia como um facilitador para essa transformação é fundamental e, por isso, os líderes do futuro vão ser pessoas focadas na inovação e tecnologia.

O estudo fala também de uma transformação paralela...

RB: A força de trabalho que hoje existe vai ser aumentada no futuro através das capacidades tecnológicas. Na verdade, estas vêm completar a força de trabalho e a capacidade das empresas. Por exemplo, quando usamos óculos de realidade aumentada para complementar um trabalho técnico especializado estamos a aumentar as capacidades do tal técnico que, de outra forma, não seria capaz de reparar um determinado equipamento.

E da parte do Estado e do setor público, o que falta fazer em Portugal neste domínio para ser eficiente na área digital?

RB: O Estado e a administração pública portuguesa têm feito um excelente trabalho. O facto de a declaração de IRS já vir pré-preenchida e não termos de ficar nas filas é um avanço da tecnologia na Função Pública. Mas obviamente que ainda há muito para fazer. Portugal está bastante avançado pela simplificação de alguns processos e, embora alguns procedimentos e regras demorem a mudar, tem sido feito um esforço. O foco tem de manter-se na transformação digital. O que disse há pouco e que se aplica nas empresas e organizações também se aplica ao Estado português. Ou seja, apostar em soluções de mobilidade, acabar com o papel e a necessidade de as pessoas se deslocarem. Existe um conjunto de iniciativas que o Estado português deve continuar a apoiar porque servem para simplificar a vida dos cidadãos.

Como vê a aplicação do RGPD? Foi-se longe demais em algumas coisas ou este é o tipo de regras necessárias para se lidar com este futuro digital?

RB: A informação tem de ser tratada de forma cuidadosa e ética. Na Accenture achamos que além de ser um desafio, é benéfico. Como somos uma empresa global, temos um conjunto de regras associadas à proteção de dados e a verdade é que a implementação do RGPD obrigou a que as regras mais restritas se apliquem no resto do mundo. E um caminho que a Europa está a liderar. O RGPD pode ser considerado complexo e difícil de implementar mas acho que o benefício de controlo, segurança e acesso será positivo. No futuro as regras vão passar a ser globais e não apenas europeias.

Como é que a Accenture está a lidar com os desafios do mundo digital?

RB: Ao nível da transformação digital, gostamos de fazer primeiro "em nossa casa" e depois propomos aos nossos clientes. A cloud é um desafio para a maior parte das organizações. A Accenture iniciou o caminho há oito anos e, neste momento, 94% dos nossos sistemas estão todos na cloud.

Como olha para o tema da cibersegurança? Está no topo da preocupação das empresas?

RB: A cibersegurança é um ponto bastante importante neste estudo. Já não basta definirmos regras para a nossa organização, também temos de o fazer para os nossos parceiros. A Siemens na Alemanha está a obrigar os parceiros a cumprir as mesmas regras e políticas que eles têm internamente, porque acham que se não o fizerem, os sistemas que estão interligados vão ficar afetados. Por isso é importante que todos cumpram as mesmas regras de segurança.

É possível fazer isso em Portugal?

RB: Não é uma questão de poder. Tem que ser feito, porque se não for assim estaremos todos mais expostos. Quando há um problema de cibersegurança numa organização, as outras também podem ser afetadas. E todo o ecossistema que sofre. Por isso o caminho passa por definir regras comuns. Antecipamos que no futuro esta questão seja vista de uma forma coletiva.

Mas é um grande investimento?

RB: Sim. Vai continuar a ser o investimento versus o risco e vai continuar a ser caro. Mas achamos que esse risco irá diminuindo se houver um investimento coletivo, em que as empresas assumam os mesmos objetivos de forma a minimizar os riscos.

Quais serão as três grandes tendências a marcar os próximos três anos?

RB: A primeira é a hiperpersonalização da oferta e dos serviços: conhecer o consumidor e dar-lhe a melhor oferta naquele momento. Outra tendência que estamos a observar é a do tempo real: onde vamos precisar de um serviço e ter a entrega agora, à semelhança da Uber. A segurança e a informação é outra grande tendência, porque deixamos uma pegada tecnológica. Importa saber como é que esta informação vai ser utilizada e em que momentos a mesma irá suscitar debate nos próximos anos. Porque a questão é: até que ponto a informação que tornamos pública pode ser usada pelas organizações? E aqui existe um equilíbrio entre conhecer o cliente e uma intrusão na vida do cliente.

Isso vê-se muito nos bancos. Acha que é uma solução que vai ser alargada a outros setores e não apenas à financeira?

RB: O consumidor é dono dos seus dados, mas tem de ter a noção que o uso dos smartphones e smartwatchs permite identificar a sua localização, e isso é informação pública. Depois, as organizações podem usá-la e para isso basta uma pesquisa no Google. É importante que os consumidores saibam que estão a partilhar essa informação. Por enquanto existe só no setor da banca mas vai alargar-se a todos os outros, porque já não são estanques e a informação flui.

Acha que as empresas deviam ter um comité de ética?

RB: Todas as organizações têm um foco grande, associado ao RGPD, de ética, qualidade de dados e de que forma a informação é utilizada. Isso tem de ser uma prioridade porque a confiança dos consumidores de uma dada empresa também se perde rapidamente. Quando isso acontece, os consumidores podem transitar rapidamente para outra plataforma ou empresa. As organizações têm de tratar os dados de uma forma ética.

As consequências da falta de ética podem ser tremendas para o valor da marca...

RB: De todos os problemas que têm existido nos últimos anos, a falta de confiança dos consumidores tem um impacto direto nos resultados das empresas, nomeadamente o impacto financeiro, jurídico e criminal.

Como vê a capacidade dos reguladores e das autoridades de fiscalizarem esse tipo de situações? Existem meios para fiscalizar a aplicação das regras?

RB: O estudo de há dois anos abordava o tema da regulação e de como esta conseguiria acompanhar a mudança digital que está a acontecer. As organizações vão ter de definir regras próprias que ajudem a regulação a acontecer. A uma autorregulação, no sentido em que se não o fizerem elas próprias vão ter problemas. Isto aconteceu no Airbnb, onde havia critérios de discriminação, perfis que não conseguiam alugar determinados apartamentos. Aqui são as empresas que devem autorregulamentar-se para garantir que têm uma oferta cuidada no mercado. A regulação tem de ajudar a inovação e não impedi-la, e isso é fundamental.

Jornal Económico | 15/03/2019 | Rui Barros

Rui Barros

Managing Director – Accenture Technology Portugal

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