Foi recentemente divulgado o Technology Vision 2018, um estudo anual da Accenture, onde são identificadas as cinco tendências tecnológicas que vão definir o futuro dos negócios. Pedro Lopes, responsável pelo estudo em Portugal, descreveu estas tendências e analisou o perfil do mercado nacional nestas matéria.

O que é o Accenture Technology Vision 2018? 

É um estudo que fazemos todos os anos e que pretende identificar quais são as principais tendências que irão afetar a vidas das pessoas e das empresas nos próximos dois ou três anos. Ou seja, não é um estudo “tipo ficção científica”, que diga que daqui a 30 anos a vida vai ser desta ou daquela maneira. Nada disso. A ideia é que se identifiquem coisas que de facto as organizações consigam acionar ao dia de hoje.

Na prática, este estudo tem de ser visto no contexto dos anteriores porque há uma continuidade do que já antecipamos noutros anos. Envolve muitos executivos, muitas empresas e utiliza um método bastante profundo. A Accenture tem uma equipa própria que está o ano todo a produzir o estudo.

Qual o foco este ano? 

Este ano o estudo está muito focado naquilo que é o impacto que a tecnologia está a ter na vida das empresas e das organizações. Não tanto numa lógica do que é que os novos produtos ou serviços podem significar nas nossas vidas, mas mais como essa inovação está a transformar setores inteiros da sociedade. De facto, está a mudar radicalmente o modo como estamos habituados a olhar para as coisas, na nossa forma de trabalhar.

O estudo é global? 

Sim, é global e tem algumas especificidades sobre algumas regiões como Ásia, Europa, Estados Unidos. E aí também se notam bastantes diferenças.

Algum aspeto que destaque? 

Eu nesta altura diria que há um gap que começa a ser significativo entre a Europa e os Estados Unidos. Efetivamente, nos sectores tradicionais como a banca, retalho ou telecomunicações começa a haver um distanciamento do mercado americano face a outros, do ponto de vista de inovação e sofisticação no lançamento de produtos.

São mais arrojados? 

Sem dúvida, experimentam muito mais. Lançam 10 projetos e se dois tiverem sucesso, perfeito. É um mercado muito mais agressivo desse ponto de vista e expõe o consumidor a um conjunto de experiências muito mais diversificado do que o mercado europeu.

E Portugal? 

Diria que ainda está num outro patamar, até resultado da nossa própria dimensão. Não é por acaso que a Amazon não está cá… não temos significância do ponto de vista de massa crítica, do ponto de vista de mercado.

Temos estado escudados de alguma concorrência por parte destes players e as nossas empresas e organizações não têm sentido essa pressão para darem um passo e se renovarem. Curiosamente, temos um ecossistema de inovação bastante interessante do ponto de vista de start-ups. Basta ir ao Mercado da Ribeira, em Lisboa, e só encontramos estrangeiros que estão de facto a trabalhar cá. Escolheram o país e a cidade para instalar a sua start-up porque temos um conjunto de valências interessantes. Por outro lado, temos em Portugal um hub de inovação bastante interessante que eu acho que podia estar a ser mais bem aproveitado pelas empresas portuguesas. Nós, enquanto multinacional, estamos a tentar aproveitar essa onda de inovação que está a acontecer no país para exportar.

Em alguma área em particular? 

Em inteligência artificial. É a nossa área de destaque. Portugal também tem um núcleo muito interessante de empresas e start-ups a trabalhar nessa área e acreditamos que podem vir a ter um papel relevante, até a nível global. Também há uma diferença interessante naquilo que é o DNA das start-ups portuguesas e das que estão cá a trabalhar: já nascem com uma perspetiva global. Enquanto, por exemplo, uma start-up espanhola nasce com a lógica de ganhar o mercado espanhol, uma portuguesa pensa logo em ganhar o mercado global porque o português é muito pequeno. Esse mindseté muito importante do ponto de vista da alavancagem daquilo que são as nossas ideias.

Como é que a intervenção da Accenture está a funcionar nesse universo? 

Procuramos identificar start-ups que tenham ideias e produtos interessantes. E tentamos incorporar essas soluções dentro de soluções mais globais para os nossos clientes, seja numa primeira fase, para clientes nacionais seja, depois, para internacionais. Porque em Portugal temos centros de tecnologia que trabalham para mercados internacionais.

Como avalia a importância desta dinâmica no sector do ecossistema das start-ups? 

Diria que as empresas portuguesas ainda não estão a sofrer a pressão de outras empresas globais e, nessa perspetiva, acho que ainda olham para as start-ups de uma forma muito experimental. E se calhar deviam olhar mais numa ótica de “como é que eu incorporo estas boas ideias naquilo que é o meu portefólio de produtos e serviços”. Acho que hoje ainda se pensa muito em silos, ou seja, as empresas estão muito focadas na sua indústria ou sector. Não quero generalizar, mas diria que a maioria delas estão agora a começar a despertar para este movimento. Temos duas realidades distintas: uma dinâmica e inovação muito grandes do lado das start-ups, e depois muitas empresas tradicionais que ainda continuam um pouco adormecidas face àquilo que podiam fazer. Inovação traz inovação.

Os consumidores portugueses já são recetivos a este tipo de tecnologia? 

Os consumidores portugueses são early adopters de tudo o que é tecnologia. Adoram tecnologia. Por exemplo, somos dos países que, a nível mundial, teve taxas de penetração mais altas logo nos primeiros anos dos telemóveis. De facto são muito recetivos àquilo que é inovação e tecnologia. Agora, também têm eles próprios que ser evangelizados, expostos a determinadas experiências e determinadas formas de relacionamento que as empresas com os seus produtos têm de disponibilizar. Tudo isto é um processo. E aqui penso que a inteligência artificial vai ter um impacto muito grande.

Em relação ao estudo, o que resultou de mais relevante da análise feita? 

Das cinco principais tendências que identificámos creio que a mais relevante é a inteligência artificial enquanto “cidadão”. E o que é que isto quer dizer? Da mesma maneira que uma criança tem de ser educada e tem de receber princípios de responsabilidade e ética, também a inteligência artificial tem de ser educada na perspetiva em que tem capacidade para tomar decisões de forma autónoma, de aprender coisas por si só e de evoluir sem interação humana. É quase como se a inteligência artificial fosse um organismo vivo e, como tal, tem de ser educado de acordo com determinados princípios éticos e de responsabilidade porque senão podem ocorrer coisas menos boas, no sentido em que podem tomar decisões que não estão de acordo com determinadas regras.

E como é que isso se faz? 

Incluindo nos próprios processos de desenvolvimento de algoritmos e da própria inteligência artificial determinados guidelines que têm de ser tidos em conta quando as empresas implementam este tipo de tecnologia. Temos de olhar para isto como um “cidadão”, ao qual temos de ensinar determinados princípios sob pena de termos efeitos menos controlados. Esta é a primeira tendência e uma das mais interessantes.

E a segunda grande tendência qual é? 

Tem a ver com a realidade estendida ou mista, aumentada ou virtual, que até agora tem estado muito no domínio dos jogos e que cada vez mais as empresas estão a usar nos seus processos internos, e até no modo como interagem com os clientes. Nos Estados Unidos há uma marca de automóveis que nos seus stands usa óculos de realidade aumentada que permitem que os clientes configurem o seu carro e o vejam, no próprio stand, em tamanho natural com as opções e com os acabamentos escolhidos.

É uma outra forma de relacionamento em que se mistura o mundo virtual com o real. A Walmart, por exemplo, tem um caso curioso: tem um problema para treinar os seus colaboradores para as black Friday, que só acontecem uma vez por ano. Então criaram um programa de treino a pensar nesse dia específico onde, através da realidade aumentada, simulam a entrada repentina de muitas pessoas na loja. Trata-se daquilo a que chamamos realidade estendida.

A terceira tendência tem a ver com a veracidade dos dados. Cada vez mais as empresas são governadas pela informação que têm, pelos dados que possuem. Ora, se esses dados não forem atuais, se não forem os corretos, podem tomar-se decisões erradas. Esta importância da veracidade dos dados é outras das tendências em que acreditamos que as empresas vão ter de se focar nos próximos anos. Precisamente para garantir que não só obtêm dados, mas dados que sejam fidedignos e ilustrativos da realidade. Por exemplo, um dos casos referidos no estudo é o da United Arlines que perdia mil milhões de dólares todos os anos porque a informação que utilizavam para a alocação dos lugares nos aviões estava incorreta e usava algoritmos desajustados, que sempre foram usados e que nunca ninguém questionou. A tendência aqui é que as empresas terão de ter cada vez mais foco na qualidade e veracidade dos seus dados.

E a quarta tendência, qual é? 

É aquilo que chamamos, traduzido para português, de “negócios sem fricção”. Partindo daquela lógica em que para terem sucesso, cada vez mais as empresas têm de construir um ecossistema à sua volta, ou seja, terem parcerias com outros players do mercado, no sentido de tentarem ter um leque de produtos e serviços cada vez mais abrangente. Isso é uma realidade e as empresas sabem que têm de o fazer. E estou a lembrar-me do CEO da Amazon que há uns anos enviou um email para toda a organização focando a obrigatoriedade de fazerem os seus desenvolvimentos de software com APIs, que são uma espécie de interfaces que permitem tornar transparente e ágil o modo como as empresas comunicam e trocam dados. O CEO terminava advertindo que quem optasse por não implementar este tipo de tecnologia seria despedido no dia seguinte. Segundo dizem, o facto de ter criado logo na sua génese uma plataforma aberta foi um dos segredos para que a Amazon tenha hoje o sucesso que tem. É o que chamamos de plataforma aberta.

Portanto, aquilo que esta tendência nos diz é precisamente que as empresas têm de criar essa dita plataforma aberta, no sentido de tornarem o interface e a relação com outros parceiros numa relação sem fricção. Qual é o problema? É que, hoje em dia, as estruturas de sistemas da maioria das empresas não estão preparadas para isso e, portanto, há uma transformação que terá de ser feita.

Esta é uma tendência que vai dar que fazer às empresas… 

Sem dúvida. Vai exigir grandes investimentos.

A quinta, e última tendência, tem o nome pomposo de Internet of Thinking e tem muito a ver com a IoT. Ou seja, cada vez mais temos um mundo físico que tem capacidade de sentir e de atuar com base na informação que recolhe. Ora, apesar da cloud estar a ter uma aceitação extraordinária no mundo inteiro, a verdade é que nem tudo se pode basear na cloud uma vez que não existe capacidade de banda larga para transportar toda essa informação e processá-la em tempo real, pelo que teremos de ter uma capacidade de processamento distribuída. Aquilo a que chamamos edge computing. Um exemplo concreto: um carro autónomo, produz um terrabyte de dados por hora. É impensável que essa informação esteja a ser transmitida para uma cloud central para ser processada. Esse processamento tem de ser feito no próprio veículo porque não existe capacidade de transmitir e processar essa informação em tempo real. Se calhar é um exemplo extremo de como vamos ter de distribuir o processamento não só pela cloud mas também para as franjas onde estão esses dispositivos que recolhem e atuam sobre a informação. E é esta a quinta tendência.

Há muito investimento tecnológico em perspetiva? 

Sem dúvida. Diria que a IoT vai ser uma das grandes revoluções nos próximos anos. Ou seja, este mundo físico em que vivemos passar a estar automatizado e ganhar vida. Coisas tão simples como hoje abrirmos uma porta e acendermos luzes, daqui a cinco ou 10 anos vão parecer-nos estranhas. Daqui a alguns anos, vamos olhar para o dia de hoje como agora olhamos para há 100 anos.

Algum outro aspeto de revelo identificado no estudo? 

Algumas coisas que não são propriamente tendências acionáveis para a comum das empresas, mas que vão ter implicações grandes no futuro: o tema da computação quântica; e, mais especificamente na área da saúde, o tema da edição genética.

Das cinco tendências referidas, quais são que têm mais viabilidade no mercado português? 

O tema da inteligência artificial tem uma grande aplicabilidade em todos as regiões . Está a ter muita tração noutros mercados e também começa a ter em Portugal. Ainda com pequenas experiências, tudo ainda muito embrionário, mas acho que tem um potencial brutal do ponto de vista de ganhos de eficiência ao permitir transformar a relação que as empresas têm com os seus clientes, numa lógica de muito maior personalização da oferta de produtos e serviços.

Depois a quarta tendência: a transformação das arquiteturas de sistemas que permitam uma maior capacidade e agilidade no estabelecimento de parcerias. Diria que são as duas com maior premência de aplicabilidade em Portugal.

E as empresas vão conseguir acompanhar o ritmo? 

Acho que vamos ter de tudo. Em Portugal existem algumas que o estão a começar a fazer. Outras não estão assim tão despertas e, tal como noutros mercados, vão sofrer com isso. Porque cada vez mais isto é um mercado global e a pressão da concorrência vai cá chegar, mais cedo ou mais tarde. Mas estou bastante otimista.Temos todas as condições para conseguir ter sucesso, em particular porque temos aqui um hub de inovação que, se bem aproveitado, em particular pelas empresas portuguesas, pode ser uma alavanca tremenda para trazer inovação para dentro das empresas.

Globalmente, quem acha que vai estar à frente de todos estes processos? 

Os Estados Unidos e a China. Ainda recentemente fiquei surpreendido quando vi o ranking das 20 maiores empresas mundiais e eram todas americanas e chinesas. Nenhuma europeia. Há uns anos o cenário era diferente.

A Europa está a ficar para trás? 

Está. Por muito que custe dizer.

Por falta de quê? 

Eventualmente, até é uma questão cultural. Os americanos sempre tiveram um DNA mais entrepreneur, e depois são um mercado enorme, tal como a China. Qualquer empresa na China com um nicho de mercado é maior do que qualquer empresa de um país europeu. A Europa tem de pedalar um bocado para conseguir lá chegar.

Há algum país europeu que se destaque? 

O Reino Unido e os países nórdicos. Isso até se percebe na própria Accenture, pelo tipo de projetos que estamos a fazer.

Pedro Lopes

Managing Director - Accenture Technology Portugal

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