À medida que as equipas de trabalho se tornam "human +", cada colaborador recebe um novo e crescente conjunto de capacidades alavancadas pela tecnologia e as organizações devem apoiar esta nova forma de trabalhar na era pós-digital. De acordo com o estudo da Accenture Technology Vision 2019, mais de dois terços (71%) dos executivos acredita que os seus colaboradores são mais maduros a nível digital do que a sua organização e têm a expetativa que a organização os acompanhe.

JORNAL ECONÓMICO: O que significa a tendência "Humans + Workers"?

Paula Fernandes: Tem a ver com a tecnologia e o mundo pós-digital em que os humanos, além das suas competências e capacidades, têm que desenvolver algumas capacidades acrescidas para acompanhar a tecnologia. Esta tendência chama a atenção das empresas, na medida em que muitas delas já desenvolveram estratégias digitais para o seu negócio, para os seus clientes, no seu posicionamento no mercado, e também têm que o fazer com os seus colaboradores. Já não é só essa capacidade, digamos assim, humana, mas uma extensão na perspetiva tecnológica. Hoje em dia, e pensando em coisas mais simples, todos trabalhamos nos nossos computadores, utilizamos a nossa tecnologia, e isso traz-nos algumas capacidades em termos de mobilidade, possibilidade de trabalhar em casa. A forma como os colaboradores encaram aquilo que fazem e têm de aprender muda consoante a tecnologia que está sempre a avançar e a evoluir. É nessa perspetiva que falamos, no desenvolvimento das nossas capacidades para também acompanharmos a tecnologia.

JE: Quando é que deve começar esse desenvolvimento?

PF: Tenho uma filha de dez anos e penso muitas vezes qual o tipo de capacidades que ela deve desenvolver para se posicionar no mercado de trabalho no futuro. Acredito que aquilo que vai fazer com que ela consiga evoluir será a capacidade de aprendizagem, a flexibilidade, a adaptabilidade, a mobilidade, as capacidades analíticas ou de gerir a informação. Muito mais do que ela vai aprender na escola ou na universidade. Estas capacidades de networking e de criatividade serão as principais skills destes colaboradores no futuro.

JE: As soft skills ganharão mais importância?

PF: Não são só as soft skills, mas também estas características analíticas, como a capacidade de análise e de informação. Antigamente, tínhamos carreiras com alguma previsão: um médico sabia exatamente o que fazer. Hoje em dia, temos de estar sempre a reinventar-nos, a aprender. E esta mobilidade, adaptação e flexibilidade que temos de incorporar e promover nos nossos colaboradores. Um colega meu que tirou o curso de engenharia civil no Técnico está a pensar em fazer um curso de formação de oito meses, para se requalificar em Java. Estamos a falar de uma pessoa de 40 anos que quer fazer esta requalificação. É esta capacidade de adaptação que nós procuramos e que as empresas também devem repensar: como é que vamos requalificar os nossos colaboradores? Como é que os vamos fazer adaptar-se? Um dos desafios para as empresas tem a ver com o recrutamento, a forma como recrutamos e o que é que procuramos. A Unilever tem um caso muito interessante que desenvolveu - em vez de fazer uma análise normal de CV, uma entrevista e testes psicotécnicos - criou um jogo que tem Inteligência Artificial (IA) incorporada, que permite antever como é que as pessoas reagem ao risco, mudança, mobilidade, identificação de desafios e capacidades analíticas. O próprio jogo, através da IA, recomenda determinadas pessoas para determinadas posições de acordo com esta análise. Temos de alterar a forma como recrutamos e a forma como formamos também. É preciso estar em constante aprendizagem.

JE: O departamento de recursos humanos tem a responsabilidade de definir como aplicar a IA na empresa?

PF: O negócio e o mercado exigem que as empresas se tornem mais tecnológicas para aumentarem a sua produtividade, as suas vendas, o acesso ao cliente, etc. Mesmo os nossos clientes, a primeira coisa que nos pediram foi a definição de estratégias nessa perspetiva, nos seus negócios. Depois, quando chegarmos à parte dos colaboradores, os recursos humanos vão desempenhar um papel fundamental. Mas, na prática, tal como todos os departamentos, acredito que vão fazer parte de uma estratégia global da empresa. Na Accenture, temos formações a decorrer independentemente do que estejam a fazer hoje.

JE: Como vê o espaço de trabalho do futuro?

PF: Vejo os espaços de trabalho numa perspetiva de coworking. Portanto, espaços que estão disponíveis, têm as condições quando são necessários para fazer sessões e juntar todas as pessoas. As pessoas não precisam de estar sempre lá e podem trabalhar por objetivos, numa lógica de consultoria e prestação de serviços, open spaces, espaços de coworking.

Jornal Económico | 17/05/2019 | Paula Fernandes

Paula Fernandes

Senior Manager Da Accenture Technology

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