António Brancal Ribeiro, da Accenture Portugal, explica para onde caminha a inteligência artificial, uma das cinco grandes tendências tecnológicas que estão a ter impacto na economia.

São cinco as tendências tecnológicas identificadas pelo novo relatório Accenture Technology Vision, que a consultora elabora há já alguns anos. O objetivo é alertar para o potencial de disrupção que algumas tecnologias podem ter nos próximos anos, ou já estão a ter, no presente, em alguns mercados e setores.

Uma dessas tendências é a inteligência artificial (que o relatório chama de Citizen AI), algo que tem vindo a despertar o interesse de António Brancal Ribeiro, Senior Manager na Accenture Technology. Em entrevista ao ECO, o especialista garante que a inteligência artificial teve um grande desenvolvimento no ano passado e que já se materializou em alguns aspetos da nossa vida. Está nos nossos smartphones e, aos poucos, vai começando a entrar nas nossas casas. Mas também há riscos.

De facto, não é implementar inteligência artificial, é educar inteligência artificial.

Diz o relatório que, hoje em dia, as empresas estão mais na vida das pessoas. Porquê? 

Sim, diz, porque os produtos e serviços com que as empresas se meteram na nossa vida são coisas que nos dizem alguma coisa. Esses produtos e serviços são artigos de formas de vida, que fazem parte da nossa vida. São elementos que, diria, são quase vitais à nossa existência. É um facto: as empresas estão cada vez mais na nossa vida. Porque os produtos e serviços que são habilitados pela tecnologia e perspetivados pelas empresas são artigos decorrentes da nossa vida e das nossas necessidades básicas como seres humanos.

Começa a deixar de fazer sentido falar de inteligência artificial como uma tendência per si, e mais como uma característica intrínseca à tecnologia? 

Uma evidência. Lembro-me que, dentro do que tem sido o Accenture Technology Vision, no ano passado a inteligência artificial era o novo interface de utilização. O mote que me veio na altura era o de que a inteligência artificial já não era ficção científica. Já não era. Nessa altura, estávamos a brincar com bots de voz, chatbots e já era possível. Se calhar não era possível responder ao sentido da vida, mas já era possível responder a muitas coisas mais concretas. Era algo real. Neste último ano, a projeção de crescimento materializou-se, desde conduzir com o Waze a pedir coisas fora. Em paralelo, existem outros avanços significativos no mundo das análises clínicas e no mundo da medicina.

Mas a inteligência artificial ainda não responde ao sentido da vida…

Ainda não responde ao sentido da vida.

Estamos a caminhar para lá? 

Espero que estejamos perto do sentido da vida, mas não chegamos ao sentido da vida. Estamos com cada vez mais capacidade e mais modelos. Na prática, apesar de isto não ser determinístico, tem uma base determinística feita em zeros e uns. Também, como refere o relatório, quando passarmos do zero e do um e passarmos para o quantum computing [computação quântica], outros paradigmas e paradoxos se vão revelar. Aguardo com ansiedade o que será o próximo passo permitido pela capacidade de processamento, capacidade de comunicação e capacidade de interpretação.

Que passo é esse? 

Espero que nos aproxime do sentido da vida, de alguma forma.

Isso vai trazer benefícios para as empresas? Vemos que há aqui quase um duopólio que é: por um lado, benefícios para as empresas no sentido em que torna algumas tarefas mais eficientes e, por outro, para as pessoas, enquanto clientes e utilizadoras, no sentido em que traz maior personalização de serviços. É isto?

Não gostava de segmentar entre empresas e pessoas. Vai trazer benefícios ao mundo em geral. E faço um paralelo com revoluções industriais. De facto,muda a forma como nós nos conhecemos e como nós vivemos. Também no relatório vem referido o estabelecimento de cidades à volta das redes ferroviárias, o estabelecimento de cidades e povoações à volta da eletricidade, já para não falar das máquinas e da revolução industrial pura. Onde é que isto nos vai pôr a seguir? Imagino que seja num mundo completamente ligado, eliminando distâncias e com o conhecimento cada vez mais na palma da mão, estruturado de uma forma que a gente consegue interagir com ele e tirar os proveitos. Todos: empresas e pessoas.

Aguardo com ansiedade o que é que será o próximo passo permitido pela capacidade de processamento, capacidade de comunicação e capacidade de interpretação.

Vamos chegar a uma realidade em que ser servido por um humano vai ser uma coisa só para as elites? 

Não. Espero que não. Aliás, tenho tendência a ver isto como um passo numa democratização do conhecimento e da disponibilização desse conhecimento e dessas capacidades. Portanto, até vejo, de certa forma, como um mecanismo para esbater as diferenças que as capacidades de cada um de nós habilitam no mundo atual.

Passemos às aplicações práticas. Em que setores cá em Portugal é que a inteligência artificial está a criar uma maior disrupção? 

Diria que nos serviços financeiros (banca) e, espero eu, em Governo. Administração pública.

O Governo está atrasado na adoção destas tecnologias? 

Não gosto de falar na palavra “atrasado”. Mas diria que deu os passos certos para se pôr a par se, eventualmente, tivesse aqui algum hiato em relação a esse atraso.

Está a fazer um caminho? 

Está. E acho que está a fazer o caminho com os princípios certos e com os primeiros passos certos.

No caso do setor da banca, concretamente, o que é que a inteligência artificial pode trazer de novo, ou já trouxe? 

Interação e tratamento de informação. Gestão de risco. Um conjunto de coisas. Esbater barreiras. Com a capacidade de quebrar barreiras linguísticas, poder alargar a base de clientes e a base de alcance muito, muito além do que existe atualmente. E também com a fragmentação das fintechs e com a inteligência cada vez mais associada aos produtos que são oferecidos. Atenção que o setor bancário, apesar de não ser a melhor pessoa para o dizer, está com muita convolução. O PSD2, toda a mudança regulatória que se avizinha, agora com o GDPR que se avizinha também… há bastante movimento a acontecer e achamos nós que a inteligência artificial vai ajudar a combater parte dessa convolução. A estabilizar.

O António esteve, no passado, ligado ao setor das comunicações. Onde é que, nesse setor, a inteligência artificial vai atuar? 

Mais uma vez a nível de interação, fraude, tratamento de informação, disponibilização de serviços de conveniência às pessoas, proximidade.

O próprio atendimento? 

No atendimento também, e a dois níveis. Não só a possibilidade de algumas coisas mais corriqueiras, algo que extravasa todos os setores: a partir do momento em que tenho a capacidade de interagir com a voz e consigo imaginar a voz como ferramenta de trabalho, e conseguir pôr essa capacidade no meu ecossistema, posso tirar proveito dela para libertar as minhas pessoas para fazerem outras coisas de mais valor. E, ao mesmo tempo, aumentar a eficiência e a satisfação dos clientes.

A partir do momento em que tenho a capacidade de interagir com a voz e consigo imaginar a voz como ferramenta de trabalho, e conseguir pôr essa capacidade no meu ecossistema, posso tirar proveito dela para libertar as minhas pessoas para fazerem outras coisas de mais valor.

Passemos a outro ponto, que é o dos riscos. Temos inteligência artificial, temos máquinas com poder de decisão. Se uma máquina autónoma, com poder de decisão, comete um erro, de quem é a culpa? 

Não tendo propriamente uma opinião pré-formada nisso, e tendo em conta que existe um conjunto de regulação a ser tratado relativamente a esse tema, diria que é onde os reguladores decidiram que a responsabilidade vai aterrar. Apraz-me agora trazer aqui para a conversa um exemplo que está referido no relatório da Audi. Até 2019, vai assumir a responsabilidade pelos acidentes que o seu software de condução autónoma tem. E acho que vai ser um debate interessante, ver exatamente qual é a definição dessa responsabilidade e, depois, do que é que vem associado a essa responsabilidade.

Há uma dimensão ética muito grande associada a esta questão, também.

Concordo pessoalmente, com bastante força, da forma como o estudo põe: de facto, não é implementar inteligência artificial, é educar inteligência artificial. E é codificar o que é que vão ser, de facto, os modelos de comportamento que a gente espera que a máquina tenha.

Aqui também é importante a questão da integridade dos dados. Que tipo de garantias é que os utilizadores, que não têm controlo sobre o algoritmo, podem ter de que a máquina está a tomar decisões com base na informação certa? 

É abordar a inteligência artificial com este foco nestes pilares-base do que é que é permitido e não é permitido. Ou seja, que modelo de comportamento é que a máquina pode adotar e não adotar. Se for secundado já com a existência de regulação, então, que estes sistemas obedeçam exatamente ao que a regulação determinar em termos de comportamentos. A questão ética, depois, também variará de local para local e é sempre um tema que não é muito fácil de abordar. Não é linear depurar assim uma linha ética.

Falou de regulação. Os reguladores europeus estão a acompanhar a tendência, ou estão a ficar para trás? Como está o estado da regulação? 

A nível europeu, na minha impressão, com o GDPR e com todo o conjunto de regulações, parecem estar um passo à frente. Nos Estados Unidos, tanto quanto julgamos saber, está a ser agora ultimada regulação para responsabilidade e liabilities de sistemas de inteligência artificial. Não me parece é que ainda tenha sido consequente essa regulação. Na Europa, parece-me que, ao contrário, já há uma sensibilidade maior, não só dos dados mas daquilo que são as capacidades do sistema. Portanto, diria que, a nível europeu, parece estar um bocadinho à frente.

A sociedade portuguesa já tem consciência de que isto é uma realidade, ou ainda há muita gente a leste, a pensar que a inteligência artificial é um filme de ficção científica? 

o mundo empresarial e no mundo que nos rodeia, aqui, ao nível de proximidade, sim. Agora, o resto da sociedade eu não sei muito bem. Mas se vir a quantidade de pessoas agarrada a smartphone, e muitas destas pessoas estão ligadas em redes pessoais que utilizam amplamente a inteligência artificial, eu diria que sim. A generalidade da sociedade portuguesa já está exposta a essa realidade. Eventualmente, até já interage com ela.

Está exposta, interage, mas possivelmente não a compreende.

Eu, sobre a compreensão, não consigo opinar. Desejo fervorosamente que sim, que compreenda.

Volto a perguntar-lhe, agora de forma mais concreta: para onde é que isto caminha? Daqui a cinco anos, o que é que já vamos ter de inteligência artificial? 

Diria que já devemos estar perto do sentido da vida. Já devem ter sido criados os modelos, as ontologias, para cristalizar grande parte do conhecimento. A capacidade de interação já deve existir e com bastante sofisticação. É mesmo uma questão de construir estas ontologias e ir melhorando as mesmas ao nível da interação. Diria que estaremos muito perto disso, do sentido da vida. Ou seja, ao nível das interações com voz, com escrita, teremos uma capacidade completamente natural de sermos consequentes nessas mesmas interações, a sensorização, acredito, com menos custo do que são os sensores, vai estar muito mais disseminada. A conectividade, os wearables, e toda esta conectividade que temos, os relógios, roupa que sinta, também vai estar muito mais efetiva.

Vamos andar a falar para os nossos telemóveis na rua? 

Vamos andar a falar para os nossos telemóveis na rua, talvez para os carros. Vamos ter uma Alexa em casa (alguns de nós já temos), mas talvez um dos merceeiros lá ao pé de minha casa estará do outro lado, já o suficiente, para eu lhe mandar ter os produtos prontos. A esse nível, então, vai ser bastante rápido o disseminar.

A generalidade da sociedade portuguesa já está exposta a essa realidade. Eventualmente, até já interage com ela.

A nível da tendência da inteligência artificial, qual é a mensagem que o relatório passa às empresas? 

A mensagem principal é que, cada vez mais, a tecnologia vai estar na forma como nós vivemos e como interagimos entre todos, sejamos pessoas ou empresas. E não são só as empresas e os clientes. São as empresas, os empregados, os parceiros, os clientes, e a rede de influência dos clientes. E quando estamos a falar de que os produtos e serviços são artigos do dia a dia, da nossa vida, pois de facto vai estar tudo ligado através de tecnologia e tudo, enfim, a desfrutar da vida através da tecnologia. Por exemplo, a realidade aumentada, que é uma coisa fabulosa: eu ter uns óculos ou uma coisa que me esteja a projetar informação para complementar, ou esteja a passar essa informação à distância. Agora, qualquer pessoa se liga com um computador e está a falar com o outro lado do mundo ali, a olhar para a pessoa, a interagir. Todas estas tecnologias para fazer reuniões, para dar formações. Tanta coisa. E, na vertente mais nobre: análises clínicas. Análise de uma montanha de informação.

Fica a faltar a pergunta da praxe: os robôs vão roubar-nos os empregos ou não? 

A minha posição é a de que “empregos” é um saco muito grande. Vai haver mudanças e qualquer mudança traz coisas, a nível individual, boas e más. Se eu estiver a atender um telefone ou a fazer uma tarefa muito repetitiva, muito baseada em regras, pois, a probabilidade de me manter a fazer essa tarefa talvez não seja propriamente grande. Agora, se isso for uma motivação para eu tentar fazer outras coisas, aprender outro tipo de competências e me dedicar a enriquecer-me, a sofisticar-me, acho que isso é um resultado positivo.

António Brancal Ribeiro

Senior Manager – Accenture Portugal

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