Ter algumas coisas na cloud é bastante diferente de ser uma empresa cloud first, mas há ainda um longo caminho a percorrer até que todas as empresas percebam essa diferença. Vanda Gonçalves, managing director, responsável pela área de Cloud da Accenture Portugal, explica a importância de migrar adequadamente para a cloud, de forma a usufruir de todas as vantagens para o negócio que esta pode proporcionar.

Executive Digest: Qual é o peso da cloud no processo global de Transformação Digital?

Vanda Gonçalves: Nos últimos anos, a evolução da economia global tem forçado as empresas a procurar melhorar a sua elasticidade, eficiência e inovação e, no topo da lista, surjem as iniciativas cloud e o reconhecimento de que ser cloud first é um facilitador chave da transformação digital, que induz uma transformação no core dos negócios para a qual o tema das infra-estruturas de TI é fundamental. Não obstante, a cloud é muito mais do que uma fonte de infra-estrutura de TI mais barata, escalável e melhor. É a plataforma de entrega que acelera a inovação e o principal capacitador da reinvenção do negócio, pois reúne numa única plataforma simplificada tudo o que é necessário para novar, nomeadamente, os dados, as pessoas, os parceiros, os processos e a tecnologia. Os serviços na cloud permitem que as empresas capturem, processem e relacionem quantidades massivas de dados, em tempo real, permitindo novos cálculos e modelos preditivos que podem orientar decisões, oferecer suporte a novos modelos de negócios e aceder a novas linhas de receita. As empresas também se podem integrar perfeitamente com outros serviços e dispositivos numa plataforma comum. Tudo isso fornece um caminho de risco reduzido, acessível e acelerado para os recursos digitais mais recentes do mercado e ajudando as empresas a obter mais valor e de forma mais rápida, enquanto se preparam para o futuro.

E.D: Segundo um estudo recente da Accenture em 17 países, 94% dos executivos afirmam que já têm alguma ligação à cloud. Portugal acompanha esta tendência?

V.G: O estudo da Accenture revela que, em 2019, cerca de 94% das empresas já tinham adoptado a cloud, de alguma forma, mas apenas cerca de 20% dos workloads das referidas empresas estavam na cloud. Em Portugal, muito embora a adopção da mesma tenha vindo a aumentar nos últimos anos, estamos ainda aquém da média europeia e temos assimetrias entre os diferentes sectores e empresas de dimensões diferentes. A verdade é que a pandemia da COVID-19 demonstrou a necessidade e urgência da transformação digital e colocou todos os negócios sobre uma grande pressão, independentemente da dimensão da empresa ou do seu sector de actividade. Estima-se que com esta aceleração da transição para a cloud vai haver uma evolução dos actuais 20% de volume na cloud para cerca de 80% nos próximos três anos. As empresas portuguesas não poderão ficar à margem deste processo de transformação e temos registado uma preocupação crescente em incorporar ou acelerar os projectos de transformação. Segundo o relatório da IDC, mais de dois terços das organizações em Portugal já utilizam serviços cloud, independentemente do modelo, e há a previsão de que este número vá continuar a crescer.

E.D: Existe uma diferença entre ter uma ligação à cloud ou ter a empresa, efectivamente, a trabalhar na cloud. O que falta para uma transição global e consistente?

V.G: Existe de facto urna grande diferença entre ter uma estratégia cloud first e ter algumas coisas na cloud. No estudo da Accenture, resultou claro que apenas cerca de 20% dos workloads das empresas estavam na cloud, o que significa que há ainda um longo caminho a percorrer. As empresas não conseguem cumprir a promessa da cloud sem as pessoas, as competências e as mentalidades adequadas para o efeito, juntamente com uma visão poderosa de como o negócio se vai reinventar.

E.D: A pandemia veio evidenciar os benefícios da cloud? E fez com que algumas empresas acelerassem esta transição?

V.G: Durante anos, as empresas foram optimistas nas suas autoavaliações, acreditando que estariam mais adiantadas na transformação digital do que realmente estavam. Mas a pandemia trouxe uma nova realidade e as disrupções resultantes deixaram expostas as limitações aos vários níveis, desde os acordos de trabalhos e operações inflexiveis, a cadeias de abastecimento frágeis, informação não fiável e novas necessidades dos clientes. A pandemia da COVID-19 criou um ponto de não retorno que obriga a uma forte necessidade de aceleração da transformação digital e da migração para a cloud, conferindo maior resiliência e confiança, mais agilidade e rapidez, o desenvolvimento de novas experiencias e produtos, a par da redução de custos estruturais, factores cruciais para fazer face aos desafios económicos e sociais que a crise gerou. As empresas foram forçadas a reconhecer as lacunas e a compactar as agendas de transformação de uma década num plano de dois a três anos.

E.D: O estudo da Accenture refere que 80% dos executivos considera que a cloud é um meio para mitigar o risco do negócio. Como se concretiza?

V.G: A cloud é percebida por 80% dos executivos como um meio para reduzir o risco e mitigar a incerteza do negócio e a crise pandémica a que assistimos colocou o tema no centro das preocupações, com as organizações a sentir a criticidade da resiliência, da capacidade de adaptação, agilidade e escalabilidade dos seus sistemas para manter as operações. Neste período, a cloud emergiu de forma clara como o método mais rápido e resiliente de manter os negócios e as comunidades a funcionar. Há evidências do poder da resiliência da cloud com empresas que nos últimos anos investiram na construção de capacidades robustas de comércio eletrónico na cloud a serem capazes de acelerar, com agilidade, durante a crise enquanto que outras que não o fizeram se debateram com dificuldades para acompanhar as mudanças rápidas das necessidades e comportamento dos clientes.

A cloud permite a democratização da rapidez, agilidade e escalabillidade, possibilitando pagar pela utilização, e com isso uma gestão mais optimizada dos custos e a redução da pegada ambiental. Além disso, os fornecedores cloud estão continuamente a lançar novos serviços através das suas plataformas, oque permite às empresas capturar o valor das sinergias e traçar um caminho de risco mais reduzido, acessível e acelerado para os recursos digitais mais recentes do mercado, permitindo-lhes obter mais valor e de forma mais rápida, enquanto se preparam para o futuro.

E.D: de que forma é que a transição para a Cloud impacta nos resultados do negócio?

V.G: O mercado financeiro reconhece o valor de uma estratégia cloud integrada e recompensa empresas de cloud first. Uma análise às 200 maiores empresas globais demonstrou uma forte correlação entre uma estratégia focada na cloud e um melhor desempenho financeiro. As empresas podem atingir uma taxa de crescimento duas a três vezes maior que os seus pares, investindo estrategicamente na cloud e articulando essa estratégia.

Demasiadas empresas focam-se exclusivamente na optimização dos custos de IT, mas a cloud é um facilitador das várias dimensões de valor do negócio com potencial de gerar valor ao nível do crescimento do negócio e inovação, da melhoria da eficiência operacional e redução dos custos totais de IT. O valor mais amplo da cloud está ainda para ser aproveitado pelas empresas e é por isso que devem colocar a mesma na primeira linha das suas estratégias de transformação e crescimento. A cloud deveria ser usada para alimentar a inovação na experiência do cliente e no desenvolvimento de produtos e deveria estar a ser desenvolvido mais talento cloud de classe mundial. As organizações que o fizerem serão mais ágeis, competitivas, resilientes e capazes de aproveitar melhor o que o futuro reserva. O risco de ficar para trás enquanto os concorrentes cloud first avançam é significativo e inevitável. Para cada organização que segue uma jornada cloud linear focada na redução de custos, existem muitas outras que estarão à procura das futuras vantagens competitivas e potencial de disrupção, comprometendo-se com uma transformação cloud completa do seu negócio.

E.D: 45% dos inquiridos no estudo da Áccenture afirmam que atingiram os resultados mas não estão totalmente satisfeitos. Quais os factores de insatisfação detectados?

V.G: Muito embora a cloud seja vista como um imperativo urgente, o caminho é complexo e a obtenção dos benefícios transformacionais da cloud envolve múltiplas dimensões. Para além da estratégia e do plano para escalar o uso da cloud, é igualmente fundamental a definição de métricas para medir o seu retorno e que devem capturar valor de múltiplas formas, incluindo, para além do custo, a rapidez, a facilidade de introdução de novo processo de negócio ou uma oferta ao cliente, o aumento da eficiência/ nível de serviço ou a resiliência/ continuidade do negócio.

Quando as empresas não obtêm o valor esperado do seu investimento em cloud, há muitas vezes um equívoco fundamental que tem a ver com a crença de que os investimentos em cloud são um tema de IT ou que é meramente um custo variável de datacenter. Muitas empresas têm um roadmap de execução, mas não têm métricas e indicadores definidos para medir osucesso. No estudo da Accenture verificámos que, em média, 83% dos executivos dizem ter alcançado quase todos ou todos os resultados esperados e 45%, em média, dizem estar totalmente satisfeitos com os resultados esperados. Estes resultados são fortemente influenciados pelo nível de adopção cloud, sendo que a percentagem de organizações totalmente satisfeitas com resultados obtidos é de 55% nas que têm um nível elevado de utilização cloud e desce para 35% nas que têm uma adoção reduzida. Em todas as dimensões analisadas, o nível de executivos satisfeitos ou totalmente satisfeitos com os resultados é superior a 80% e a percentagem de insatisfeitos é inferior a 9% em qualquer uma das dimensões.

E.D: Quais são os obstáculos para as empresas tirarem melhores proveitos da cloud?

V.G: A jornada para obter os benefícios da transformação é complexa e é, por isso, natural que surjam algumas barreiras, cuja percepção em termos de valorização, aparentemente, varia de acordo com o tipo de papel que os lideres têm na organização. No estudo da Accenture, o top 3 de barreiras identificadas deixa claro que não há uma resposta comum quando se pede aos executivos que identifiquem os principais obstáculos com que se confrontam para atingir os objectivos da sua agenda cloud. Não obstante, a barreira mais frequentemente referida no top 3 é a da segurança e risco de compliance (46%), seguida da infrastrutura legada (40%) e desalinhamento entre IT e negócio (40%).

Quando consideradas as barreiras numa perspectiva de nível de adopção da cloud, verificamos que as organizações que têm um nível de adopção baixo tendem a estar mais preocupadas com temas de falta de competências, segurança e soberania de dados e as organizações com nível de adopção elevada da cloud, identificam como principais obstáculos a segurança, a complexidade do negócio e mudança organizacional, a par com o desalinhamento entre o IT e o negócio. A tendência mais preocupante talvez seja precisamente a do desalinhamento entre o IT e o negócio que, de acordo com os executivos que participaram no estudo da Accenture, vai aumentando à medida que cresce a taxa de adopção da cloud. Este é requisito fundamental para o seu sucesso e parece ser ainda um desafio para uma larga percentagem das organizações. À medida que a complexidade aumenta, o alinhamento em relação aos objectivos e amplitude do que é necessário para os atingir é ainda mais importante para que se possa retirar todo o valor da cloud.

E.D: Quais as tendências de futuro para maximizar a utilização da cloud?

V.G: Pensando em termos de futuro, as empresas precisam ampliar os seus horizontes no que à cloud diz respeito. É necessário acelerar o seu valor e não há uma abordagem única que seja a indicada para todas as organizações. Cada empresa precisa de um pensamento holistico cloud first; uma abordagem integrada e orientada a uma estratégia de planeamento e prioritização pode oferecer um impacto maior e mais rápido. A jornada não tem que seguir uma abordagem linear que procura completar a optimização de custo de IT antes de mover a outras grandes fontes de geração de valor, como a eficiência operacional (com transformação e automação) ou crescimento e inovação (com novos modelos de negócio). Em alternativa, as empresas deverão estar focadas na identificação das capacidades específicas necessárias para rapidamente (em meses) potenciar eficiências operacionais, crescimento e inovação.

Executive Digest | 31/05/2021 | Vanda Gonçalves

Vanda Gonçalves

Managing Director –Technology - Accenture Portugal​

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