Sónia Ferreira Santos, associate director da área de saúde e administração pública da Accenture Portugal, explica ao JE como a pandemia acelerou a inovação no setor. Novas formas de acompanhamento do doente vieram para ficar. Estratégias das organizações de saúde vão mudar.

A pandemia da Covid-19 foi declarada há mais de um ano e, desde então, que a resiliência dos sistemas e serviços nacionais de saúde são colocados à prova todos os dias, em todo o mundo. Isto porque as unidades de saúde procuram garantir uma resposta robusta aos doentes Covid-19, ao mesmo tempo que têm de reinventar mecanismos de ação junto dos doentes não Covid-19.

Resultado? Apesar dos constrangimentos e das situações limite, provocadas pelo contexto pandémico em diferentes momentos, impactando na capacidade de resposta dos profissionais de saúde e das unidades hospitalares, “a pandemia estimulou um grande esforço de inovação de todo o setor da saúde, abrindo-se caminho para uma adoção rápida das novas tecnologias de informação”, de acordo com as declarações da associate director da área de saúde e administração pública da Accenture Portugal, Sónia Ferreira Santos, ao Jornal Económico.

“A pandemia testou os limites da resiliência operacional dos prestadores de saúde e desafiou toda a indústria. Prever e planear o dia de amanhã tornou-se uma tarefa complexa, e a resiliência e a criatividade acabaram por se tornar ferramentas essenciais de sobrevivência do dia-a-dia”, conta.

De que forma? Segundo Sónia Ferreira Santos, os hospitais sobrecarregados tiveram de, “de forma célere e eficiente”, apostar em novas ferramentas de trabalho “dirigidas ao cidadão e à mobilidade dos profissionais, tendo como pano de fundo a simplificação de processos, digitalização e inteligência artificial”.

Exemplos da simplificação de processos na saúde são o acompanhamento dos casos por chamadas telefónicas e as consultas médicas online a doentes não urgentes, que “passaram de 30% para 56%, segundo os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (entidade gestora dos sistemas de informação do SNS), permitindo, assim, responder a parte das consultas adiadas em tempo de pandemia”.

Para a gestora da Accenture, “a digitalização dos serviços hospitalares, uma missão que parecia lenta e morosa, acabou por ser catapultada pela urgência pandémica”. “Claramente que a pandemia foi um catalisador da digitalização do setor da saúde. O que se planeou durante anos, passou à prática numa semana”, acrescenta Sónia Santos Ferreira, que acredita que as “novas formas de prestação de cuidados de saúde vieram para ficar, proporcionando um forte impacto nas estratégias de todas as organizações de saúde nos próximos anos”.

“A título de exemplo, a permanência da distância, que mudou de ‘conveniência’ para ‘necessidade’, levando a uma mudança monumental e estrutural nos modelos de atendimento, espaços físicos e experiências do cidadão. Por outro lado, alterou-se o sentimento de comunidade cocooning, deixando a liberdade individual para o ‘bem comum’, com maior ênfase nos resultados com benefícios para a sociedade em geral. As novas abordagens operacionais foram também notórias, surgindo da necessidade de gerir a capacidade e os volumes de doentes, minimizando os impactos negativos da crise financeira do país”, argumenta.

Com recurso à tecnologia, o tratamento começa em casa

Mas se as novas formas de cuidados de saúde vieram para ficar, como fica a relação médico-doente? A responsável da Accenture Portugal para a área da saúde salienta que a solução passa por um equilíbrio entre os serviços hospitalares presenciais e virtuais, por um lado. Por outro, os cidadãos estão mais atentos aos cuidados de saúde, adotando o uso de wearables e de smartwatches, que permitem “medir a saturação de oxigénio no sangue ou até monitorizar continuamente os sinais vitais, como frequência respiratória, níveis de atividade, estado de sono e marcha”. Sónia Ferreira Santos afiança que estes aparelhos tornaram-se “autênticos dispositivos médicos”.

“Muito do que se faz nos hospitais e centros de saúde vai ter início na casa de cada um. Vamos ter informação suficiente para gerir os nossos problemas de saúde em casa. Os cidadãos têm mais autonomia para gerir a sua própria saúde e envolverem-se numa parceria com seus médicos, através da partilha de informação, garantindo uma maior transparência dos dados clínicos, e estabelecendo uma relação de corresponsabilização na tomada de decisão”, explica.

Mais investimento em novos meios é preciso, diz Accenture

Não obstante, a “mudança radical” nos cuidados de saúde a que se assiste e que se prevê que perdure e se aprofunde, por via da digitalização da saúde, nos próximos anos, terá de ser acompanhada de novos investimentos.

Isto é, segundo Sónia Ferreira Santos, criar modelos de negócio e reintegrar o valor das organizações no novo cenário social, bem como dotar os prestadores de cuidados de saúde “de novas formas de trabalho, capacitando os profissionais com novas skills, adaptadas às novas tecnologias, e de infraestruturas”, para “criar um ecossistema de saúde mais próximo e eficiente” requer “um investimento em novos meios de assistência ao cidadão, por exemplo, associando a tecnologia 5G”.

“Por esta via será possível acelerar diagnósticos, decisões, cirurgias e tratamentos, possibilitando o acesso a número ilimitado de soluções assentes em aplicações, wearables, inteligência artificial, realidade aumentada e virtual ou machine learning”, sublinha.

“Pense-se nos casos de plataformas de saúde baseadas em tecnologias de inteligência artificial, que permitem ao cidadão, perante os sintomas apresentados, saber se tem de ir para a urgência de um hospital, ou se pode ser atendido através de uma teleconsulta. Isto não só é benéfico para o cidadão, porque poupa tempo e deslocações, como permite libertar e aumentar a produtividade dos estabelecimentos de saúde, focando-os nos casos mais urgentes, que necessitam de usufruir dos seus equipamentos médicos”, conclui.

O Jornal Económico | 09/04/2021 | Sónia Santos

Sónia Santos

Associate Director – Saúde e Administração Pública, Accenture

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