Em Portugal existem três grandes temas que marcam a visão estratégica das empresas: o digital, a sustentabilidade e a globalização. Para Rui Barros, managing director da Accenture Portugal responsável pela área de tecnologia, há um caminho claro a seguir, o de uma "transição digital sustentável" que vai possibilitar às empresas recuperar mais rápido e sair mais fortes da crise pandémica. «Sabemos hoje que as empresas líderes na transição digital e com práticas sustentáveis têm quase três vezes mais probabilidade do que outras empresas concorrentes de serem consideradas "tomorrow's leaders". Esta dupla transformação implica incentivar modelos de negócio baseados em ecossistemas, impulsionados pela sustentabilidade e dotados de tecnologia, e combinar recursos para integrar aplicações tecnológicas com práticas sustentáveis, reconhecendo que a sustentabillidade e a tecnologia não são prioridades que possam ser encaradas de forma separada.»

Executive Digest: Qual é que é o nível de digitalização médio das empresas portuguesas?

Rui Barros: Portugal ocupa o 19º lugar no Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade entre os 28 Estados-Membros da UE, de acordo com dados de 2020. Se olharmos atentamente percebemos que o indicador da tecnologia digital nas empresas se encontra abaixo da média europeia, em 16º lugar. Em particular, a percentagem de empresas que utilizam as capacidades de computação na Cloud e efectuam análises de volumes elevados de dados no suporte à sua actividade é inferior à média da UE, sendo as grandes empresas a liderar esta transformação em Portugal e com adopção reduzida nas PME. Acreditamos que investir na digitalização das empresas e na capacitação das pessoas, para que se possa inverter esta situação, não só é essencial como deve ser um verdadeiro desígnio nacional.

E.D: Apesar desta aceleração "forçada", quais os desafios e resistências que as empresas ainda enfrentam?

R.B: No último ano a urgência da digitalização foi uma questão de sobrevivência. Mas é importante perceber que esta transformação tem que ser mais do que tecnológica e é necessário que todos nas empresas o assumam e não criem barreiras a este processo. Para realmente acontecer uma transformação no negócio, esta tem de ser guiada por uma estratégia clara e um modelo operativo reinventado para a agilidade. É obrigatório aliar a mudança tecnológica a uma alteração nas formas de pensar e trabalhar. Se não se prepararam as pessoas, os processos e as métricas para fazer acontecer a transformação digital de que o mercado precisa, os esforços do último ano caem no vazio. Outro desafio poderá ser a falta de capacidade de investimento em inovação e tecnologia, associado ao desenvolvimento de centros de competências locais que permitam diferenciar a oferta de produtos e serviços no mercado local e atacar o mercado global utilizando o potencial da economia digital. Também ofacto de Portugal ter um tecido empresarial muito fragmentado e baseado em PME pode limitar a capacidade de escalar e atrair investimento em escala. Infelizmente temos ainda escassez de talento tecnológico qualificado, que é um travão na transição e na oferta de serviços digitais.

E.D: Qual o impacto que já se faz sentir nas empresas e na sociedade?

R.B: O comércio electrónico disparou para valores nunca antes vistos. Segundo dados da SIBS, representava 10% antes da pandemia e subiu para 18%. Isto diz-nos que os hábitos de compras mudaram. Vamos assistir, daqui para a frente, a um modelo híbrido, que resulta de uma combinação entre o físico e o digital. Em que a loja não desaparece mas se transfigura para proporcionar um serviço diferente, complementar, que trabalhe melhor a vertente da experiência. Um pouco por todo o mundo, e num curto espaço de tempo, a Accenture pôs grande parte dos seus clientes a trabalhar à distância. Algumas empresas já tinham bases para o fazer, e para essas foi mais fácil; as outras tiveram que se adaptar. Acreditamos que a COVID-19 mudou a perspectiva de muitas empresas sobre este assunto. O trabalho presencial não morreu, mas as empresas estão a repensá-lo. A possibilidade de trabalhar à distância abre a muitos uma porta ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Às empresas permite-lhes recrutar talento onde antes, fisicamente, não era possível. Claro que esta nova janela traz consigo toda uma alteração de cultura corporativa e até da forma como se trabalha com a tecnologia disponível. Daqui a três anos as organizações melhor sucedidas serão as que resistiram a trazer as pessoas de volta para os seus escritórios e aproveitaram a oportunidade para repensar o modelo de trabalho para um mundo em constante evolução.

E.D: E na Administração Pública?

R.B: A pandemia estimulou um grande esforço de adaptação da Administração Pública, abrindo caminho para uma adopção das novas tecnologias de informação. O que se discutiu durante anos passou à prática numa semana. Uma missão que parecia lenta acabou por ser catapultada pela urgência pandémica. Acreditamos que estas novas formas de prestação de serviços vieram para ficar, proporcionando um forte impacto nas estratégias de todas as organizações públicas nos próximos anos. A título de exemplo, assegurar a distância e segurança entre as pessoas, mudou de uma "conveniência" para uma "necessidade", e leva a uma mudança monumental e estrutural nos modelos de atendimento, espaços físicos e experiências do cidadão. As organizações precisam de estar preparadas para mudanças rápidas - sejam na cadeia de abastecimento, parcerias ou forma de trabalho dos colaboradores - e o acelerar da adopção da tecnologia é fundamental. Criar novos modelos de negócio e reintegrar o valor das organizações no novo cenário social é essencial.

E.D: A Administração Pública está a passar no teste da digitalização?

R.B: Ao nível da Administração Pública somos reconhecidos na disponibilização de serviços digitais, ocupando o 13º lugar nesta categoria do IDES. Importa voltar a acelerar o investimento e inovação na forma como se disponibilizam serviços digitais aos cidadãos, com mais foco na sua efectiva utilização e na transformação digital e desburocratização dos processos internos. Os impostos e o cartão do cidadão são exemplos de excelência a replicar.

E.D: Quais são as questões mais prioritárias em Portugal, hoje, em matéria de Transformação Digital?

R.B: A integração de inteligência artificial, adopção de recursos na cloud, capacidades de realidade aumentada e conectividade 5G estão a originar uma transformação global e é nestas áreas que Portugal deve apostar. Indicaria três caminhos essenciais para o sucesso: digitalizar e individualizar a experiência; realinhar objectivos; e criar sistemas mais ágeis, aproveitando o que de melhor a tecnologia nos dá, garantindo flexibilidade e rapidez para adequação à mudança.

E.D: De que forma esta Transformação Digital já está a incrementar a competitividade e quais os sectores onde isso é visível?

R.B: Temos várias empresas portuguesas que começaram como startups, apostaram em inovação e escala global e rapidamente atingiram um valor de mercado superior a mil milhões de dólares. Por exemplo a OutSystems, que disponibiliza uma plataforma tecnológica de desenvolvimento rápido de software (low code), através da cloud, para clientes em mais de 50 países. E a Farfetch, que entrega os seus artigos de luxo em cerca de 190 países. Temos ainda a Talkdesk, com o desenvolvimento de uma plataforma de contact center baseada em cloud e reconhecida pelos analistas globais. Estas empresas são líderes globais nos seus nichos de mercado.

O sector do retalho, desde a área alimentar ao especializado, tem estado a desenvolver desde há vários anos um processo de transformação, alavancando novas tecnologias, cujo efeito combinado potencia exponencialmente esta transformação (Cloud, Big Data, Robótica, Machine Learning, Inteligência Artificial, Robotic Process Automation). Temos vindo a assistir ao crescimento acelerado dos pure players digitais e à reinvenção dos players mais tradicionais, no sentido de proteger e fazer crescer o negócio. Com o crescimento exponencial do comércio electrónico durante a pandemia, esta transformação acabou por ser acelerada.

No campo das Utilities, tem sido feito caminho em direcção à digitalização do ciclo de vida do cliente e dos activos de rede. A EDP, por exemplo, já instalou 3,2 milhões de contadores inteligentes que podem identificar padrões de consumo e falhas, de forma a corrigir os desvios e optimizar os sistemas de gestão de energia.

E.D: Qual é que é o papel da Accenture Portugal na consultoria às empresas neste processo de Transformação Digital?

R.B: Hoje somos uma empresa de serviços profissionais end-to-end e queremos manter a mesma postura de colaboração e parceria para com os nossos clientes, com uma clara e contínua aposta na aceleração da transformação digital do tecido empresarial português e da Administração Pública. Asseguramos toda a componente de definição estratégica, capacitação do cliente em termos tecnológicos, digitais e operação.

Pretendemos também consolidar a nossa oferta de soluções tecnológicas flexíveis e escaláveis, baseadas na cloud, que permitam potenciar os dados de forma segura, valorizando processos de transformação e inovação mais rápidos com impacto significativo nos resultados dos nossos clientes. A cloud continuará a ser o nosso maior foco.

Por exemplo, no final do ano passado lançámos a área Cloud First, que visa acelerar a transição digital e a migração de clientes para a cloud. Com um investimento de 2,5 mil milhões de euros para os próximos três anos, centralizámos numa única área o acesso a uma rede global de cerca de 70 mil profissionais com profundos conhecimentos de cloud, um conjunto integrado de capacidade de dados, infra-estrutura e aplicações integradas, um forte ecossistema de competências e uma cultura de mudança, juntamente com soluções de indústria. Adicionalmente, temos vindo a realizar investimentos na área de Security incorporando uma oferta integrada, reconhecida pelos analistas, em que os clientes valorizam as capacidades tecnológicas, a velocidade e flexibilidade que permita mitigar as ameaças crescentes de cyber-segurança.

O nosso propósito é "cumprir a promessa da tecnologia e da criatividade humana" assegurando a geração de valor 360º para os nossos clientes.

E.D: E quais é que são as grandes tendências que se adivinham num futuro pós-pandemia?

R.B: Depois dos constrangimentos a nível global causados pela crise da COVID-19 em 2020, as empresas procuram retomar o seu caminho e, muito importante, com o foco no futuro. O nosso relatório anual Tech Vision define cinco grandes tendências para 2021.

Uma liderança mais ousada e com a prioridade centrada na tecnologia será uma das bases do negócio. Permitirá maior flexibilidade; rapidez; adaptação a mudanças de contexto e utilização das capacidades nativas da cloud como potenciador dessa transformação digital.

Na Accenture utilizamos o conceito de "Masters da Mudança" para aqueles que se adaptaram a esta nova realidade de pandemia de forma bem-sucedida. As empresas perceberam que estes líderes não esperam pelo novo normal para se adaptarem, mas antes, são criadoras e promotoras de novas realidades. Não se trata apenas de ajustar o negócio, é preciso reverter os protocolos e criar uma nova visão para o futuro.

Este é, também, um momento único para reconstruir um mundo melhor do que era antes da pandemia, e o sucesso financeiro será apenas uma das métricas essenciais para a liderança. As estratégias de negócio e de tecnologia fundem- -se numa só.

Prevemos, igualmente, uma utilização mais ampla dos digital twins. Com modelos que têm por base a Inteligência Artificial, Machine Learning e Internet of Things, as empresas podem hoje optimizar operações; detectar e prever anomalias; evitar tempo de inactividade não planeado; gerar maior autonomia; e ajustar projectos e estratégias com base em dados recolhidos ou em novos testes executados.

Acreditamos que as empresas irão capacitar os seus colaboradores para resolver problemas com o uso da tecnologia. Existe uma mudança inegável em direção à tecnologia democratizada e novos modelos de colaboração.

Por fim, os sistemas partilhados, como blockchain, distributed ledger, bases de dados distribuídas, tokenização e uma variedade de outras tecnologias e recursos, serão também uma tendência, pois impulsionam a eficiência e a criação de novos modelos de negócio e de receita.

Executive Digest | 31/05/2021 | Rui Barros

Rui Barros

Managing Director – Accenture Technology Portugal

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