As restrições impostas aos horários do comércio levaram os retalhistas a antecipar as promoções. O setor prevê agora uma época de saldos fraca, até porque as coleções que deveriam ter sido vendidas em 2020 foram guardadas para o próximo ano.

Nem na tradicional corrida aos saldos, 2020 será um ano como os outros. As promoções de inverno, que saem do armário logo a seguir ao Natal e prolongam-se até fevereiro, deverão ter este ano pouco impacto na faturação do retalho especializado.A atividade promocional que antecedeu a quadra natalícia foi tão intensa que deverá anular o efeito da época de saldos, preveem os especialistas ouvidos pelo Negócios.

"Algumas insígnias anteciparam as promoções para fazer face às dificuldades sentidas no comércio. Em alguns casos, os descontos começaram 15 dias antes do Natal, o que é permitido do ponto de vista da lei. Foi uma tentativa de salvar o ano", destaca Gonçalo Lobo Xavier, diretor geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED).

Segundo Manuela Vaz, vice-presidente da Accenture Portugal, a atividade promocional começou a ser notória logo na altura da Black Friday, assinalada a 27 de novembro, e desde então nunca mais parou. "Em alguns casos, a Black Friday estendeu-se pelo mês todo. E os descontos foram muito acentuados, acima de 50%", o que deverá atenuar o interesse dos consumidores em novas promoções.

As restrições impostas ao comércio, como o encerramento às 13 h aos fins de semana e feriados nos concelhos de maior risco, mas também o rácio de pessoas por loja, levaram os retalhistas a enveredarpel a estratégia do preço para atrair clientes. A opção foi notória tanto nos grandes grupos como no comércio local. "Houve muitas promoções, numa tentativa de salvar as vendas de Natal. As próprias juntas de freguesia ofereceram descontos para promover o comércio local", acrescenta a presidente da União das Associações de Comércio e Serviços de Lisboa, Lurdes Fonseca.

Coleções ficaram na gaveta

Para a época oficial de saldos que agora começa, as expetativas da responsável da UACS são baixas. Sobretudo para o setor da moda, que regista "quebras altíssimas, porque não há eventos nem festas de fim de ano ou casamentos", nota Lurdes Fonseca. Nas lojas de vestuário, os próximos dois meses serão marcados por "uma oferta muito mais limitada face a anos anteriores, porque no verão houve uma retração no investimento por parte dos empresários" do pequeno comércio.

Entre as grandes cadeias de vestuário a situação é semelhante. Na prática, explicam os especialistas, peças que deveriam estar em saldos nas próximas semanas, nem sequer chegaram às prateleiras. "Algumas cadeias de retalho, que têm mais capacidade para gerir os stocks, não chegaram a colocar nas lojas as coleções previstas para este ano. Guardaram-nas para as próximas estações, o que significa que vai haver um diferimento nas coleções. Este é um momento muito confuso para o retalho", sentencia Manuela Vaz.

A perceção do porta-voz da APED é idêntica. "Houve uma necessidade de reajustar as coleções para fazer face a este contexto atípico e dificil", o que será "naturalmente" visível nos saldos, e que também deverá contribuir para uma procura mais contida.

Apesar da atividade piomodona! que antecedeu o Natal, os responsáveis fazem um balanço negativo daquela que costuma ser a temporada mais forte para o retalho. Em Lisboa, nota Lurdes Fonseca, as lojas "acabaram por ser penalizadas, porque nos concelhos em volta, o comércio pôde, durante grande parte do mês de dezembro, estar aberto ao fim de semana da parte da tarde, e as pessoas deram importância a isso". Notou-se "que algum movimento foi deslocado para os dias úteis ", mas "não compensou as perdas, nem correspondeu às expectativas que tínhamos". Até ao final do ano, antevê a responsável da UACS, haverá "muitos comerciantes a repensar se continuam ou não de portas abertas em 2021".

A "febre de sábado de manhã" não contagiou os portugueses, corrobora Gonçalo Lobo Xavier, que classifica de "desastroso" o impacto do recolher obrigatório aos fins de semana. As contas aos "estragos" ainda não estão feitas, mas "é certo que a faturação não terá paralelo com anos anteriores".

Portugueses gastaram menos

Menos gastos e mais compras online. Segundo um estudo feito pela Accenture no mercado norte-americano, terá sido assim o Natal de 2020. De acordo com Manuela Voz, vice-presidente da consultora em Portugal, as tendências foram semelhantes no mercado nacional. "Os estudos apontam para gastos menores e diferentes em Portugal". No conjunto da época natalícia, que só termina no fim do ano, espera-se um incremento das refeições em casa, "o que tem um impacto positivo no retalho alimentar". Em sentido contrário surgem categorias como a moda, que terão apresentado "quebras acentuadas", resultantes de uma quebra expectável dos gastos com presentes. Tal como no início da pandemia, ressalva a responsável, ofoco dos gastos dos portugueses nesta quadra esteve "nas categorias que beneficiam o bem estar dentro de casa e nos bens de primeira necessidade"

Negócios | 28/12/2020 | Manuela Vaz

Manuela Vaz

Vice-Presidente, responsável pelas áreas de Indústria, Transportes, Consumo, Distribuição e Retalho – Accenture Portugal

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