No caminho para o 5G há um trabalho de transformação digital que já ocorre há vários anos nas empresas e que a Accenture acompanha muito de perto. Para perceber qual o ponto de situação da transformação digital em Portugal, falámos com Pedro Galhardas, da Accenture Portugal.

RISCO: De que forma as empresas estão a inserir a transformação digital nas agendas estratégicas?

PEDRO GALHARDAS: O que verificamos em Portugal é que há três grandes temas que marcam a visão estratégica das empresas: o digital, a sustentabilidade e a globalização. Todas as empresas com quem trabalhamos estão a actuar nestes três domínios. Ser cada vez mais digitais, cada vez mais sustentáveis, não apenas na sua oferta de produtos e serviços para clientes, mas também na forma como se organizam, e cada vez mais a olhar para fora e para as suas oportunidades de crescimento em mercados externos.

R: Como se materializam estas tendências na estratégia das empresas do sector financeiro?

PG: No sector financeiro, é patente que todos os bancos em Portugal estão a dar passos na questão da digitalização. Isso é visível na forma como interagem com os seus clientes. Hoje em dia, todos os bancos têm canais digitais onde os clientes acedem às suas contas e ao seu património, e executam operações que antes exigiam uma ida ao balcão.

Por outro lado, é visível que as empresas do sector financeiro transportam todas as questões relacionadas com a sustentabilidade para a forma como actuam. Até há muito pouco tempo, as chamadas green bonds não tinham tanta relevância no mundo financeiro. Hoje têm muito mais. Os bancos emprestam cada vez mais a empresas sustentáveis e criam incentivos extra para os clientes que o são.

Em termos de globalização, os bancos portugueses sentiram, nos últimos anos, o avanço de novos players internacionais, como o Revolut, por exemplo, que facilmente acedem ao mercado português e competem com a banca em determinados nichos. Nesse ponto, a globalização tem colocado aos bancos portugueses a necessidade de se tornarem mais competitivos e inovadores.

R: O que pode fazer a banca tradicional para se distinguir neste contexto de mudança?

PG: A banca, além de ser tornar mais digital, está também a tornar-se mais eficiente em determinadas fases do seu modelo operativo, até pela evolução da regulação nos últimos anos, que tem obrigado a uma maior carga burocrática e mais processos internos.

Há um aspecto da digitalização que muitas vezes passa despercebido. As pessoas consideram apenas o que é visível e que se resume a duas coisas: o ponto de contacto com os clientes e as startups, que são nativas digitais. No entanto, a transformação digital não se esgota nestes dois pontos. Passa também por digitalizar, o mais possível, o modelo operativo das empresas, com ganhos significativos a nível de eficiência.

Cerca de 60-70% de ganhos do digital em termos de criação de valor ou impacto nos resultados da empresa advém da transformação no modelo operativo das empresas. Esse é um dos aspectos que a banca tem vindo a desenvolver de forma consistente.

Outro aspecto importante é a banca inovar nos seus produtos e serviços, tornando-se um parceiro activo de outras empresas para criar ofertas onde a fonte de financiamento e o produto estejam "casados" desde a sua configuração. Isso já é visível em alguns sectores — o caso típico da aquisição de um automóvel, em que o plano de financiamento já está negociado entre o banco e o stand.

R: De que forma o 5G vai contribuir para estes modelos?

PG: O 5G é mais um potenciador de novas oportunidades. Vai trazer a capacidade de processar e transferir uma maior quantidade de dados e informação massivamente. Isso vai permitir às empresas criar condições para avançar ainda mais o seu processo de digitalização em tudo o que tem a ver com comunicações máquina com máquina, Internet of Things (IoT), etc.

O 5G vai facilitar esse desenvolvimento e abrir oportunidades para que as empresas possam beneficiar desse tipo de serviços que possa vir a ser prestado pelos operadores de telecomunicações.

Ouve-se muito dizer que o 5G não vai acrescentar muito mais à relação dos operadores com os consumidores. No futuro ver-se-á o que acontece com o consumidor, mas é claro que o 5G pode acrescentar muito à relação Business to Business (B2B).

R: Qual o papel da Accenture nesta redefinição de estratégias das empresas?

PG: Tal como os seus clientes, a Accenture tem feito o seu percurso em termos de mudança. Hoje em dia, já não é apenas uma consultora, mas um verdadeiro parceiro dos seus clientes. Qual a diferença? Uma consultora tem como fim único fazer um conjunto de recomendações ou ajudar alguns clientes na implementação das mesmas. Ao tornar-se um parceiro, a Accenture faz muito mais do que isso. Assegura toda a componente de definição estratégica, capacitação do cliente em termos tecnológicos e digitais para concretizar essa mesma estratégia e execução de partes dos modelos operativos das empresas. Este último ponto é feito na perspectiva da criação de valor — quando o assumimos, fazemos com mais eficiência, mais tecnologia e mais digital.

A conjugação destes serviços permite à Accenture ser um parceiro de negócio, de monitorização e de ganhos de eficiência de qualquer cliente. Este percurso é fruto de um processo que iniciámos em 2014 e que temos vindo a optimizar, tendo em vista o desígnio de ser um parceiro de negócio na transformação digital, modernização e inovação das empresas.

A Accenture acredita tanto no seu posicionamento como parceiro de negócio que em muitas das situações partilhamos os resultados com os clientes. Partilhamos o risco do compromisso que estamos a assumir com eles, quer ao nível de processos de transformação, quer ao nível das alterações que fazemos.

R: Quais as necessidades que os clientes mais sentem hoje em dia?

PG: Ao longo dos últimos anos, não há dúvidas de que a transformação digital tem sido um dos motivos de conversa mais recorrentes, visto que é um tema que está na agenda estratégica de todas as empresas. Tudo o que está relacionado com isso é também muito importante para as empresas, como a sua modernização, por exemplo. Uma coisa é a transformação digital na forma como as empresas operam; outra é a transformação tecnológica da infra-estrutura que está por trás, com variáveis críticas como passar muitas das aplicações para a cloud, reduzir o investimento em IT, criar as condições de cibersegurança para garantir a confiança, etc.

Outro aspecto muito importante é que as empresas começam a ver o digital como uma driver de eficiência. Num mundo cada vez mais volátil, em que as empresas sentem que os desafios mudam a uma velocidade enorme, a eficiência é uma condição de base para a sobrevivência. E, por isso, muitas empresas querem repensar os seus modelos operativos para serem mais eficientes.

R: Portugal está bem posicionado em termos de transformação digital?

PG: Consideramos que o País tem dado passos importantes. Portugal é um país reconhecido a nível internacional no que diz respeito ao digital. Temos eventos internacionais com grande visibilidade, como o Web Summit, empresas portuguesas que já são consideradas unicórnios, reconhecimento por parte de muitas multinacionais que já estabeleceram por cá centros de desenvolvimento digital... Esta é a parte positiva Mas ainda estamos aquém das melhores práticas e Portugal deveria acelerar o processo de transformação digital. É preciso trabalhar melhor a componente da aplicação do digital ao modelo operativo, para o tornar mais eficiente e dessa forma capitalizar o impacto nos resultados. Este trabalho menos visível é o que precisa de ser melhorado e acelerado nos próximos anos.

Por outro lado, em Portugal existem desafios de talento que podem tornar mais difícil este avanço. Tornar o modelo operativo mais digital obriga a que tenhamos mais talento na forma como as empresas trabalham os dados, analytics e IA, pessoas com perfis técnicos que consigam acrescentar às empresas essa camada de inteligência das operações. Se olharmos para o mercado de trabalho em Portugal, estes perfis não abundam. É preciso capacitar mais jovens neste tipo de skills, ou estaremos limitados na nossa capacidade de gerar valor com o digital. pacidade de gerar valor com o digital.

Há dois anos, fizemos a medição do contributo do digital para o PIB, que em Portugal era de 20%. Estudos internacionais indicam que, em países mais avançados em termos de digital, esta representatividade no PIB cresce para 30 ou 40%. Daí se percebe que ainda temos trabalho a fazer.

Portugal tem necessidades de desenvolvimento do seu modelo económico, que passam por atrair mais investimento, modernizar-se e tornar-se menos burocrático e criar condições para atrair e reter talento. Em vários domínios Portugal tem feito avanços no seu modelo económico, mas se quisermos realmente tornar a nossa economia mais competitiva, a transformação digital tem de ser uma das prioridades do País. É preciso ter em conta que os actuais motores da nossa economia têm limites. O Turismo tem sido bem desenvolvido, mas é um sector que não é ilimitado. Portugal tem de criar outras oportunidades, como a do Turismo, para ser mais equilibrado e sustentável.

Outro ponto importante é descentralizar as fontes de talento (universidades) e não concentrar apenas nos grandes centros de Lisboa e Porto.

Risco | 31/03/2020 | Pedro Galhardas

Pedro Galhardas

Managing Director – Strategy & Consulting Lead, Accenture Portugal

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