Em Portugal, ao contrário, por exemplo, dos EUA, falhar nem sempre é considerado um processo de aprendizagem, sendo antes um erro do qual resulta uma conotação negativa para a carreira das pessoas e das organizações envolvidas.

Ora, isso é dramático e algo que devemos alterar com urgência no nosso País, dado que a capacidade de inovar mais rapidamente que a concorrência é, nos dias de hoje, a principal vantagem competitiva das organizações. Inovar, criar algo novo, implica, por definição, falhar por vezes. Ou seja, ter ideias que parecem boas numa primeira análise, mas que a prática demonstra que não conseguem alcançar o sucesso e adesão pretendidos, e que devem ser abandonadas, passando a focar os recursos no desenvolvimento e teste das seguintes. Sem inovação, vamos ser incapazes de melhorar a competitividade do nosso País e aumentar drasticamente as exportações das empresas nacionais. Aspectos fundamentais para a prosperidade económica dos portugueses.

A inovação das organizações é algo que depende de nós, enquanto seus líderes e gestores. Na economia digital em que vivemos, já não é suficiente aplicar as melhores práticas, ter bons produtos e serviços ou proporcionar um serviço de qualidade, apesar de estas serem condições necessárias. É preciso surpreender os clientes, criar magia nas suas vidas através de experiências verdadeiramente atractivas e personalizadas, oferecendo produtos e serviços que fazem a diferença no seu dia-a-dia. Só desta forma nos conseguiremos bater com os melhores num mercado que hoje é, claramente, global por definição.

Ao contrário do que se possa crer, a inovação implica planeamento e gestão. Uma actuação integrada ao nível de organização, das pessoas e da tecnologia.

Vivemos num mundo tecnológico. Como dizemos na Accenture, na actualidade “every business is a digital business”. E inovar implica potenciar as oportunidades e gerir os desafios colocados pela tecnologia, em particular pelas novas tecnologias digitais.

As empresas precisam de adoptar um novo modelo de gestão de tecnologias digitais e de informação, promovendo novas arquitecturas de implementação mais rápidas, com maior flexibilidade de evolução, escaláveis, abertas ao ecossistema, que proporcionem uma experiência de excelência e que conectem, de forma transparente, os mundos físicos, digital e biométrico. Onde a cloud deve ser adoptada em larga escala e considerada um enabler fundamental para esta realidade. Reconhecendo que a cibersegurança, num ecossistema de inovação cada vez mais aberto ao exterior, é uma vantagem competitiva, fazendo com que conquistemos a confiança dos clientes e aumentemos a sua disponibilidade para partilhar os seus dados, bem como a nossa capacidade de entender as suas preferências, algo fundamental no paradigma digital.

Mas tecnologia que não esteja ao serviço das pessoas e dos negócios não cria valor. Quando pensamos em inovação, tendemos a achar que apenas as pessoas com maior criatividade terão sucesso. E não é assim, apesar da criatividade ser, naturalmente, uma soft skill cada vez mais importante e valorizada no mercado do trabalho.

A diversidade de talento e a mobilização de equipas diversificadas, multidisciplinares, com autonomia, responsabilização e objectivos comuns é, por si só, um factor que promove a inovação.

Precisamos de competências em humanidades e arte a trabalhar em conjunto com as de engenharia e tecnologia. Necessitamos também de adoptar novas formas de trabalhar, que passam pela utilização de técnicas de Design Thinking, para o processo de ideação, e métodos Agile, para a respectiva prototipagem e teste rápido (conceito de MVP – Minimum Viable Product). É fundamental a capacidade de escalar rapidamente os MVP que se revelam de sucesso ao serviço de toda a organização e universo de clientes, e este é talvez o factor mais desafiante para as organizações, assegurando a criação de valor em larga escala.

Além da adopção das novas tecnologias e da aposta na criação de novas skills tanto em termos do conhecimento e do domínio das tecnologias, como também das novas formas de trabalhar, é fundamental desenvolver novas culturas organizacionais, tolerantes à falha, que incentivem a proactividade e empreendedorismo. Que premeiem quem sai da área de conforto a favor da organização. Falhar não é grave, pelo contrário, faz parte do processo de aprendizagem. O sucesso faz-se em ter a capacidade de não investir demasiado tempo e recursos até se concluir que uma ideia não vai escalar com sucesso. Não por intuição ou convicção das equipas, mas sim pelo teste concreto dos MVP junto dos clientes e respectiva recolha de feedback e entendimento do valor gerado.

É preciso repensar as organizações. Que sejam cada vez mais flat. Onde as pessoas tenham um sentido de propósito e acreditem que têm algo a contribuir. Que consistam na soma de um conjunto de equipas multidisciplinares (“squads”) focadas em inovar na relação com os clientes, na operação interna, na gestão das pessoas. Potenciadas por um local de trabalho mais colaborativo, inspirador, flexível. Em síntese, um local onde as pessoas sejam felizes e queiram trabalhar.

Como dizia Steve Jobs: “a inovação é o que distingue um líder de um seguidor”. Mas inovar implica, por definição, correr riscos, falhar mais vezes. Requer actuação ao nível das pessoas, organização e tecnologias, potenciando o ecossistema de parceiros.

Executive Digest | 22/08/2019 | José Gonçalves

José Gonçalves

President & Country Managing Director – Accenture Portugal

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