Criar novos modelos de negócio e reintegrar o valor das organizações no novo cenário social pode ser a chave para uma resposta mais eficiente em tempos pandémicos. Desde logo, urge encontrar uma solução equilibrada entre o presencial e o virtual, e criar mais oportunidades de personalização de serviços de saúde. Melhorar a prestação dos cuidados de saúde é uma prioridade e a tecnologia o nosso meio. Desde plataformas de saúde baseadas em tecnologias 5G e de inteligência artificial, ajudando a descongestionar os hospitais, à adoção do modelo de patient design, é possível construir um futuro ais tecnológico e sustentável para o setor da saúde.

Vivemos tempos incertos. Prever e planear o dia de amanhã tornou-se uma tarefa complexa, e a resiliência e a criatividade acabaram por se tornar ferramentas essenciais para sobrevivermos ao dia-a-dia. A pandemia abriu caminho para uma adoção rápida das novas tecnologias de informação, agindo como um catalisador da transição digital dos serviços hospitalares - uma realidade recente e com um alto potencial para o nosso quotidiano.

Hospitais sobrecarregados apostaram em inovadoras ferramentas de trabalho dirigidas ao cidadão e à mobilidade dos profissionais, tendo como pano de fundo a simplificação de processos, digitalização e inteligência artificial. As consultas online médicas, não urgentes, passaram de 30 para 56%, segundo os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (entidade gestora dos sistemas de informação do SNS), possibilitando, assim, responder a parte das consultas adiadas em tempo de pandemia.

Se por um lado conseguimos acelerar a digitalização do setor, tornando-o mais robusto na resposta à pandemia, por outro torna-se vital projetar o futuro. Criar modelos de negócio e reintegrar o valor das organizações no novo cenário social é, então, fundamental. Por outras palavras, devemos dotar as organizações, em que incluímos os hospitais, de novas formas de trabalho, capacitando os profissionais com novas skills adaptadas às novas tecnologias, e de infraestruturas. Desta forma, conseguir-se-á chegar a mais pessoas, em concreto através da personalização dos cuidados de saúde. O cidadão passa, definitivamente, a estar no centro desta equação.

A tecnologia tem já um papel crucial junto do paciente, nomeadamente pelo potencial demonstrado na construção de uma comunidade de inter-ajuda e de partilha de informação, sobretudo em casos de doença crónica. O contacto entre várias pessoas com a mesma doença é hoje em dia possibilitado por soluções que garantem a diminuição do efeito de isolamento na vivência de cada caso, suportando uma rede de força e cooperação. Mas se esta é uma realidade social com benefícios comprovados, torna-se imperativo investir em capacidades tecnológicas, com efeitos igualmente positivos para os pacientes, no seio do hospital.

A tónica da solução prende-se com o equilíbrio entre os serviços hospitalares presenciais e virtuais. Através de um acompanhamento virtual e personalizado, que acompanhe o cidadão desde a triagem até ao tratamento, é possível criar um ecossistema de saúde mais próximo e eficiente. Mas, para isso, torna-se necessário investir em novos meios de assistência ao cidadão, por exemplo, associando a tecnologia 5G. Por esta via será possível acelerar diagnósticos, decisões, cirurgias e tratamentos, o que vai possibilitar o acesso a um número ilimitado de soluções assentes em aplicações, wearables, inteligência artificial, realidade aumentada e virtual ou machine learning.

Pense-se nos casos de plataformas de saúde baseadas em tecnologias de inteligência artificial, que permitem ao cidadão, perante os sintomas apresentados, saber se tem de ir para a urgência de um hospital, ou se pode ser atendido através de uma teleconsulta. Isto não só é benéfico para o cidadão, porque poupa tempo e deslocações, como permite libertar e aumentar a produtividade dos estabelecimentos de saúde, focando-os nos casos mais urgentes, que necessitam de usufruir dos seus equipamentos médicos.

Outro caso paradigmático é a assistência providenciada por robôs. As tarefas mais rotineiras, como a distribuição de medicamentos e a medição de sinais vitais, podem ser perfeitamente asseguradas por robôs, criando uma categoria de profissionais: os robóticos. Esta é uma inovação e cada vez mais uma tendência que irá manter-se e evoluir nos próximos anos. Com esta tecnologia não se pretende retirar trabalho a profissionais de saúde, antes pelo contrário, pretende-se isso sim libertá-los de tarefas menores, para tarefas de maior valor.

Por outro lado, assiste-se à necessidade crescente de uma nova abordagem de prestação de cuidados: o patient design. No contexto atual, este modelo de inovação permite aumentar o nível de participação do paciente em contexto hospitalar, ampliando a voz do cidadão através da sua envolvência em soluções inovadoras com alto potencial no setor da saúde. A avaliar pela relevância dos dados clínicos, dever-se-á olhar para o paciente como parte integrante de uma equipa médica, através da partilha de informação com os profissionais de saúde, garantindo não só uma maior transparência e confiança, mas também uma relação de corresponsabilização na tomada de decisão. Algo tão simples como adaptar o consultório com uma mesa redonda e um ecrã partilhado entre médico e paciente pode fazer toda a diferença.

O futuro é promissor. Muitas soluções inovadoras já foram pensadas, cabe agora à sociedade abrir caminho para a sua concretização.

Dinheiro Vivo | 18/02/2021 | Sónia Santos

Sónia Santos

Associate Director – Saúde e Administração Pública, Accenture

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