Através da Accenture Cloud First, a empresa fornece aos clientes uma combinação de conhecimento de indústria, experiência, infra-estrutura e liderança no ecossistema cloud.

Em entrevista à Executive Digest Rui Barros, managing director e responsável pela área de Technology da Accenture Portugal, explica como deve ocorrer a transformação digital das empresas e quais as melhores soluções para as organizações serem mais resilientes e responderem aos desafios actuais.

Executive Digest: Como foi o ano da Accenture e, em especial, o desempenho da área de Tecnologia? Quais as linhas estratégicas para o novo ano?

Rui Barros: Considerando o contexto de pandemia que estamos a viver, podemos afirmar que a Accenture teve um desempenho positivo este ano, tanto a nível global como local. Começámos por assegurar a transição dos nossos colaboradores para a realidade do trabalho remoto – uma logística bem-sucedida e sem qualquer impacto nas operações críticas do seu dia-a-dia – e apoiámos os nossos clientes na necessária aceleração da digitalização de processos críticos, tendo em conta a situação adversa em que vivemos. Conseguimos assegurar a continuidade dos nossos projectos sem decréscimo de produtividade, tirando o maior partido possível das novas formas de trabalho em modelo remoto e por isso estamos a terminar 2020 com a sensação de dever cumprido.

Em 2021, queremos manter a mesma postura de colaboração para com os nossos clientes, com uma clara e contínua aposta na aceleração da transformação digital do tecido empresarial português e da administração pública. Pretendemos também consolidar a nossa oferta de soluções tecnológicas flexíveis e escaláveis, baseadas na cloud, que permitam potenciar os dados de forma segura, valorizando processos de transformação e inovação mais rápidos com impacto significativo nos resultados dos nossos clientes. A cloud continuará a ser o nosso maior foco.

ED: Na vossa opinião, quais os principais pontos de acção que são necessários para a transformação digital nas empresas?

RB: Em primeiro lugar é necessário clarificar que a transformação digital não se mede por níveis de adopção de tecnologia, mas sim, pela criação de valor, com impacto substancial nos resultados e mesmo nos balanços das organizações. Deve ter como objectivo reduzir custos, incluindo a optimização do capital empregue e retorno dos investimentos (transform the core), o aumento das receitas (grow the core) e a criação de novos negócios rentáveis à escala global (scale the new).

Este processo de transição do legado tecnológico e de infra-estruturas de capital intensivo para plataformas de inovação, desenvolvidas e operadas na cloud e alinhadas à sua indústria, requer rapidez de acção, visão objectiva, escolhas acertadas e parceria com entidades como a Accenture que aumentem as capacidades e acelerem a transformação das empresas, tornando-as mais resistentes aos desafios actuais.

Acreditamos que só assim se poderá alcançar o sucesso dos processos de transformação digital, o qual se deve medir por três indicadores: redução de custos, aumento de vendas e cash-flow operacional gerados com os novos negócios conseguidos através da aposta no crescimento digital.

ED: A Accenture anunciou recentemente a criação da Accenture Cloud First para acelerar a transição digital e a migração de clientes para a cloud. Qual o principal objectivo desta nova área?

RB: A Accenture Cloud First tem como objectivo acelerar a jornada de migração para a cloud dos nossos clientes, centralizando numa única área o acesso a uma rede global de cerca de 70 mil profissionais com profundos conhecimentos de cloud, a um conjunto integrado de capacidade de dados, infra-estrutura e aplicações integradas e a um forte ecossistema de competências e uma cultura de mudança, juntamente com soluções de indústria. Através da Accenture Cloud First, aplicamos uma capacidade única de serviços que vão desde estratégia e consultoria, interactive, tecnologia e operações. Fornecemos aos nossos clientes uma combinação incomparável de conhecimento de indústria, experiência, infra-estrutura e liderança no ecossistema cloud. Todas as actividades em cloud serão agora conduzidas por uma única agenda estratégica para alcançar os melhores resultados de negócio para os nossos clientes. Através do investimento de 2,5 mil milhões de euros, este novo conjunto de serviços possibilitará o crescimento da actividade dos nossos clientes através de plataformas de inovação alinhadas ao seu sector, desenvolvidas e operadas na cloud.

ED: Consideram que a cloud é a tecnologia mais disruptiva e criadora de valor do nosso tempo, sendo a base para a transformação digital que está a originar mudanças profundas na forma como as empresas operam, competem e criam valor para todos os stakeholders?

RB: A cloud é a tecnologia base e o alicerce da transformação digital. Em breve deixará de se falar de cloud como uma área de inovação porque passará a ser uma tecnologia comum presente, de forma massiva, em todas as organizações.

As recentes disrupções só vieram reforçar a noção de que a cloud não é uma aspiração futura - é um imperativo urgente no core do negócio. Este ecossistema oferece a promessa de maior eficiência, inovação acelerada e é um facilitador crítico das tecnologias digitais avançadas, que abrem a porta a novos modelos de negócio e fontes de receita. Avaliamos este momento como uma oportunidade única para os nossos clientes transformarem o seu negócio para inovar mais rápido e criar valor diferenciador.

Acreditamos que as empresas que continuam a adiar uma mudança para a cloud em escala não estão apenas a incorrer num custo de oportunidade, estão a arriscar a sua própria sobrevivência.

ED: Como é que as empresas devem tirar o máximo valor da adopção de tecnologias digitais e reforçar o crescimento?

RB: Embora o investimento das empresas em novas tecnologias seja mais notório, é necessário compreender quais os elementos-chave que podem assegurar a implementação dos processos de transformação digital e o retorno desejado.

De acordo com o estudo da Accenture, intitulado "Future Systems", antes da pandemia a maioria das empresas já trabalhava com a intenção de tirar o maior partido da tecnologia, de forma a impulsionar o seu crescimento por meio da inovação.

Contudo, e para que as empresas sejam bem-sucedidas neste investimento tecnológico, é necessário que adoptem uma abordagem Living Systems através de cinco alavancas essenciais para a mudança: estratégia, organização, práticas, tecnologia e talento.

ED: As empresas com recursos digitais mais avançados mostraram-se mais resilientes durante a pandemia. Quais as soluções e plataformas que a Accenture colocou ao serviço dos seus clientes?

RB: A necessidade de resiliência dos sistemas continua a ser um dos pontos chave para enfrentar esta crise, sobretudo se pensarmos na necessidade de rápida criação e adequação de soluções, para corresponder às novas realidades das pessoas.

A resiliência dos sistemas considera a capacidade de um sistema de operar durante uma grande interrupção ou crise, com impacto mínimo nos processos críticos de negócio e operações - o que nem sempre é um processo simples. A resiliência de sistemas inclui aplicações, arquitectura, dados, cloud, infra-estrutura, rede e segurança que, numa altura como esta, criam soluções viáveis para combater o vírus ou para fortalecer as operações. A título de exemplo, no Reino Unido, os profissionais de saúde - médicos, enfermeiros, dentistas, farmacêuticos - precisavam de criar uma conexão que lhes permitisse comunicar de forma remota. A Accenture juntou-se ao Serviço Nacional de Saúde britânico e, com apoio dos recursos de engenharia da Avanade e Microsoft, equipou os vários profissionais com sistemas de comunicação e colaboração em todo o país. Outro dos exemplos tem a ver com a implementação de um sistema de saúde mental na Austrália, decorrente da parceria com uma das maiores prestadoras de cuidados de saúde - Beyond Blue e Medibank. Neste caso, a Accenture apoiou o pedido formal ao Governo Federal para se criar uma solução nacional que apoiasse as pessoas com maiores fragilidades.

Lançado no início de Abril, o novo serviço de apoio ao bem-estar mental oferece informações gratuitas sobre saúde mental, aconselhamento por telefone e chat e encaminhamento para outras organizações - 24 horas por dia, sete dias por semana.

Acabámos por criar várias soluções que apoiaram tanto organizações como clientes privados, tendo sempre como foco a maximização das capacidades tecnológicas para atenuar os efeitos directos e indirectos da pandemia na sociedade e economia.

ED: O futuro próximo das tecnologias e inovações vai ser também marcado por temas como a Inteligência Artificial (IA) ou a Cibersegurança. Como é que a Accenture está a ajudar as organizações a resolver os problemas e desafios mais complexos ao nível da Cibersegurança?

RB: As organizações estão numa corrida em direcção ao futuro digital, mas não estão preparadas para as novas ameaças à cibersegurança que comporta a empresa de futuro, conectada e movida através de dados. Para serem ciber-resilientes, as organizações precisam de aplicar segurança em tudo o que fazem e no que virão a fazer, através de uma estratégia de "Security by Design". Os negócios do futuro dependem de relações digitais constantes e próximas com clientes, fornecedores e parceiros para se manterem relevantes e competitivos. Mas a empresa conectada, inteligente e autónoma comporta riscos novos que necessitam de ser endereçados. Todos esses dados sensíveis, a conectividade e automação multiplicam as oportunidades para os hackers atacarem uma "área de superfície" exposta a ciberataques que foi expandida.

Para construir a ciber-resiliência devemos partir de um foco integral em pessoas, processos e tecnologia. As pessoas são um pilar fundamental, especialmente tendo em conta que cerca de 60% dos ataques bem-sucedidos exploram fragilidades humanas. Assim sendo temos de transformar os executivos de topo em líderes resilientes, apoiá-los como potenciadores da criação de negócios de confiança, e acima de tudo, tornar todos os colaboradores e parceiros como parte da solução, formando-os para que se tornem verdadeiros embaixadores de cibersegurança.

Os processos suportam a forma como a organização trabalha e, partindo do desenho de uma organização ciber-resiliente como um todo, queremos ser operacionalmente mais eficazes a combater ataques, mais rápidos a encontrar vulnerabilidades, melhores a resolver potenciais falhas e a reduzir o impacto das mesmas. Neste sentido, incluir segurança nos processos de desenvolvimento de aplicações na Cloud (DevSecOps), é um exemplo de um conceito descurado face à grande pressão do "time to market", especialmente no momento actual. A tecnologia tem de ser vista como um "enabler" para o que queremos atingir e não como uma limitação e por isso, devemos abordar novos investimentos numa óptica integrada e focada nos objectivos de negócio. Estratégias como "Zero Trust" combinam diversas tecnologias com o objectivo de potenciar a colaboração segura entre o ecossistema da empresa, dando acesso mais ágil à informação de negócio, mas protegendo-a em simultâneo.

ED: E, em relação, à IA, como é que esta pode impulsionar o crescimento das organizações?

RB: As organizações líderes têm adoptado com sucesso práticas e ferramentas de IA que aceleram a automatização de tarefas básicas nos workflows existentes.

Contudo, e para que seja percepcionado o seu verdadeiro potencial, a IA deve deixar de ser encarada apenas pelo seu valor de automação de tarefas, valorizando-a como uma ferramenta colaborativa, com poder transformador para os negócios das empresas.

Para facilitar a verdadeira colaboração entre o homem e a IA, é necessário encontrar formas de substituir a relação de "comando e resposta" entre o homem e a máquina por uma experiência que seja interactiva, exploratória e adaptável.

Este processo começa com uma comunicação eficaz. Devido a avanços no processamento de linguagem natural (NLP), as máquinas começam a perceber melhor o contexto da linguagem, em vez de apenas compreender o conteúdo. Perceber o contexto físico também é crucial para a capacidade da IA de trabalhar com humanos em ambientes de realidade estendida (XR). O reconhecimento de imagens e o machine learning permitem à IA ver o seu ambiente envolvente e percebê-lo.

Finalmente, melhores interacções entre homem e máquina vão permitir aos negócios reinventar e melhorar as ofertas e experiências que os clientes querem.

ED: Considera que a pandemia acelerou o futuro e que o digital vai ser a nova mobilidade?

RB: O digital já é uma realidade presente no nosso dia-a-dia, com um sério impacto no futuro próximo. No entanto, a pandemia veio demonstrar a necessidade de acelerar os processos de transição digital. O que achávamos que poderia demorar anos a atingir, foi conseguido em semanas, por forma a adaptar toda uma sociedade e economia à exigência de se estar seguro, fechando o menor número de portas possível integrando o meio físico e digital.

Esta pandemia veio reforçar algumas das ideias-chave apresentadas pela Technology Vision 2020, nomeadamente, a aposta em soluções tecnológicas e a importância da satisfação individual nas experiências digitais e cada vez mais personalizadas, a importância da resiliência dos sistemas, a aposta na IA como ferramenta colaborativa, a relevância da robótica, ou a transição das empresas para um ADN inovador e digital.

Executive Digest | 30/11/2020 | Rui Barros

Rui Barros

Managing Director – Accenture Technology Portugal

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