Eduardo Fitas, vice-presidente da Accenture Portugal, responsável pelas áreas de Comunicações, Media e Tecnologia, considera que a mentalidade e a motivação para a mudança são as principais preocupações que as empresas devem ter com a entrada de 5G ou de qualquer outra inovação tecnológica (como por exemplo cloud, inteligência artificial, robótica). Dito isto, o 5G vai somar às evoluções mais relevantes dos últimos tempos.

Executive Digest: Quais as maiores preocupações das empresas com a entrada em cena do 5G?

Eduardo Fitas: É importante perceber qual a disrupção tecnológica que uma evolução deste género pode trazer mas, muito mais importante, é qual a disrupção que pode ser suportada ao nível do negócio, e que não era possível materializar antes. Por um lado, é crítico para qualquer empresa entender que vantagens é que pode criar com o aproveitamento efectivo desta oportunidade, por outro, é importante perceber quais as vantagens que também pode trazer à concorrência, e que lhes possa permitir um posicionamento mais eficiente no mercado. Nos últimos tempos temos experienciado várias transformações tecnológicas realmente disruptivas e que transformaram de forma radical o mercado. A quantidade de empresas que surgiram e desapareceram, nas últimas duas décadas, não tem precedentes na nossa história. Não é possível apontar apenas uma inovação tecnológica como responsável por este tipo de impacto, mas antes o somatório de várias inovações. Estar atento ao que a evolução tecnológica pode trazer para cada mercado é uma característica que não se aplica a todas as organizações. As que não têm essa característica no seu ADN, de cada vez que uma nova tecnologia relevante surgir, vão ter sempre a sua sobrevivência ameaçada. E isto não tem a ver com dimensão, nem com o sector de actividade onde se opera, nem com a capacidade de investimento de cada organização. É mais uma questão de mentalidade e motivação para a mudança. E esta é a principal preocupação que as empresas devem ter com a entrada de 5G ou de qualquer outra inovação tecnológica (como por exemplo cloud, inteligência artificial, robótica). Dito isto, o 5G vai somar às evoluções mais relevantes dos últimos tempos. As capacidades de comunicação e interligação que traz podem, de facto, resultar em impactos disruptivos nas empresas e na sociedade. O acesso 5G pode, por si só, mudar a forma como uma empresa opera, mas vai ter também um efeito amplificador de aproveitamento de outras transformações recentes: acelera a expansão de modelos de operação em cloud; permite implementar recolha de informação mais completa para efeitos de análise ou exploração de modelos de inteligência artificial; facilita a implementação de edge computing; torna possível a automação e controlo de tarefas em modelos remotos, entre muitos outros impactos.

ED: Considera que em Portugal as empresas estão conscientes de que para aproveitar o potencial do 5G podem ter de se transformar por completo?

EF: A consciencialização do aproveitamento de uma evolução tecnológica deste tipo não se faz num evento. Existe um esforço na explicação do que é a tecnologia, mas a identificação das oportunidades que dela surgem é um processo contínuo. Numa primeira fase é correcto que se invista na compreensão do que é a tecnologia, e para esse efeito existe já bastante informação, entre eventos e tentativas de "evangelização" do mercado por parte dos operadores de comunicações. No caso particular do 5G, muito do que é a identificação de ideias que acrescentam valor aos diferentes sectores, será feita em trabalho de "originação" conjunto entre os operadores de comunicações, fornecedores de tecnologia e equipamentos, integradores de serviços e as próprias empresas, que podem explicar os seus desafios melhor que ninguém. A criação de soluções específicas para cada empresa é uma das características que se associa ao que o 5G pode trazer. Neste ponto, o conselho que deixo é que cada empresa entre em contacto com o seu operador de comunicações, com o seu integrador de serviços, com os seus consultores e comecem a criar esta dinâmica de discussão de oportunidades o mais rapidamente possível. Apesar de não existir uma oferta massificada do serviço, no caso das empresas existe uma disponibilidade dos operadores para a instalação de "redes privadas", que permitam desde já aproveitar esta tecnologia para criação de soluções específicas.

ED: Considera que Portugal está bem posicionado quanto à introdução e aplicação desta tecnologia?

EF: Do ponto de vista do acesso às novas tecnologias Portugal sempre esteve bem posicionado. No caso concreto das infra-estruturas de comunicações, sempre fomos pioneiros nos seus lançamentos e sempre tivemos acesso aos serviços fornecidos pelos operadores. Talvez no caso do 5G estejamos um pouco atrás de outras geografias, onde já se avançou mais com a infra-estruturação de algumas regiões, ou onde os pilotos têm sido mais frequentes ou relevantes na experimentação e demonstração do valor acrescentado do 5G. Alguns desalinhamentos em relação a questões de lançamento do serviço, entre os operadores de comunicações e o regulador, podem ter impactado este calendário. Aliás, nos últimos meses toda a economia foi impactada, sem excepção. Esse facto faz com que a capacidade de investimento tenha de ser reequacionada, quer do ponto de vista de quem tem de lançar o serviço (operadores), quer do ponto de vista de quem o vai utilizar (empresas e clientes finais). Esta condicionante financeira também pode influenciar a velocidade de lançamento e exploração do 5G. Dito isto, o problema em Portugal não surge do lado da oferta das tecnologias, mas sim do lado da utilização das mesmas na criação de vantagens competitivas. Normalmente são as empresas quem tem maiores dificuldades na identificação de quais as transformações alavancadas em novas tecnologias que lhes permitem aumentar competitividade, quer no mercado local quer num posicionamento mais global. Mesmo quando o impacto positivo dessas transformações é evidente existe uma resistência à mudança e aversão ao risco, que de alguma forma nos caracteriza enquanto mercado.

ED: De que forma o 5G vai revolucionar a user/customer experiente?

EF: Do ponto de vista da tecnologia, e exagerando na afirmação, não é obrigatório que exista nenhuma revolução. No limite, aumenta a velocidade de acesso com mobilidade, pode ser fornecido um acesso com maior largura de banda a locais onde a extensão de um serviço de fibra não era comercialmente viável e por isso nunca foi efectuado, e pouco mais. Não sendo um impacto desprezível, continua a ser uma revolução da experiência muito limitada. A efectiva revolução na experiência de um utilizador só acontece se, em cima da tecnologia, forem criados os serviços que tiram partido dela. E para isso, e voltando ao ponto anterior, é necessário que as empresas façam o desenvolvimento desses serviços. O exercício que deve ser feito é: que problemas podem ser resolvidos ou que diferenciais competitivos podem ser criados quando se tem acesso a uma multiplicação da largura de banda em condições móveis, com uma latência muito mais baixa e com uma densidade de cobertura de pontos de comunicação bem mais elevada. E as possibilidades são infinitas.

ED: Que inovações e serviços já existentes irão reinventar-se aproveitando a alta velocidade e a baixa latência do 5G?

EF: Existem já inúmeras soluções em exploração, tendencialmente criadas para uma empresa em particular ou para um sector específico. Existem casos de empresas que, com as características de baixa latência do 5G e com a capacidade de comunicar com inúmeros equipamentos no mesmo espaço, criaram soluções para automação e monitorização de actividades de manutenção em parques industriais e em zonas de ambiente mais hostis. Existem soluções de controlo de segurança física ou monitorização de multidões, onde o acesso de forma imediata a imagens de alta qualidade é um factor crítico. Estão a ser testadas soluções para prestação de serviços de saúde à distância, em zonas de maior dificuldade de acesso a infra-estrutura fixa ou em contextos de mobilidade, onde mais uma vez a baixa latência e a largura de banda elevada são necessidades absolutas. O caso do ensino à distância é outro tema muito comentando pelos efeitos da pandemia e onde o acesso a banda larga sem a necessidade de infra-estruturação física pode fazer a diferença entre ter ou não uma plataforma universal para este fim. Também, relacionado com as restrições de acesso a espaços de eventos, estão a ser desenvolvidas plataformas que permitam, remotamente, ter a sensação de estar a assistir a um evento desportivo no local e na companhia dos nossos amigos. Grandes feiras e eventos também estão a testar soluções híbridas de acesso a espaço físico e virtual que permitam manter a experiência sem aumentar a densidade de assistência para além dos limites impostos pelas condições sanitárias. Existe um sem número de experiências e serviços que estão a ser repensados com o acesso a um modelo de comunicação e interligação permitido pelo 5G.

ED: Que questões de segurança levanta o 5G e como estão essas questões a ser acauteladas?

EF: O incremento da informação a circular, o desenvolvimento de soluções que exigem continuidade e níveis de serviço elevados e a distribuição de pontos de acesso e de processamento de informação permitido por um 5G, trazem naturalmente preocupações de segurança e integridade da informação acrescidas. Ninguém quer estar exposto a situações onde uma intervenção cirúrgica, o controlo de uma instalação crítica, a condução autónoma de um veículo ou o apoio a uma equipa militar ou de segurança são colocadas em causa por um acesso indevido e com más intenções. Os cuidados com a segurança devem ser a prioridade estratégica em quase todos os sectores actualmente. O lançamento do 5G, tal como aconteceu com outras mudanças de paradigma tecnológicas, só aumenta ainda mais esta necessidade. Apesar disso, ainda são muitas as organizações que consideram este tema como uma questão acessória e não tratam a segurança como uma dimensão que deve ser pensada "by design".

ED: Na sua opinião, como pode o 5G apoiar a economia portuguesa?

EF: A necessidade de aumentar a competitividade não é um tema novo, nem para Portugal, nem sequer para a Europa. Desde pelo menos o início do milénio que o crescimento anual médio do PIB na União Europeia é inferior ao dos EUA e muito inferior ao da China. As previsões actuais apontam para que o decréscimo de PIB na União Europeia seja na ordem dos 8,3% este ano e que o crescimento em 2021 seja de apenas 5,8%. E, pelo menos até ao momento, as previsões têm vindo a piorar. Por isso, se queremos que o futuro nos sorria mais, temos que fazer algo. A inovação e transformação das nossas empresas é uma obrigação, não só para o seu crescimento como para a sua própria sobrevivência. O 5G não é uma cura para este desafio, é apenas mais uma alavanca que deve ser analisada e explorada. Mas o tema está na motivação para a mudança e na forma como gerimos o risco nas várias organizações.

Executive Digest | 31/08/2020 | Eduardo Fitas

Eduardo Fitas

Managing Director – Accenture Portugal

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