Litigância pode atrasar ainda mais 5G. Consultora diz que é “importante” garantir condições para o aumento da competitividade das empresas nacionais, além de melhorias na cobertura. Alerta de desinvestimento dos operadores “é para levar a sério”.

O sector das telecomunicações vive um momento de alta tensão com as principais empresas de costas voltadas para a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom), devido às ações judiciais movidas para anular os termos do leilão das frequências da quinta geração da rede móvel (5G). Para a consultora de tecnologias da informação Accenture, a litigância “pode ter um duplo impacto” no futuro do sector.

Segundo o vice-presidente e responsável pelas áreas de comunicações, media e tecnologia da Accenture Portugal, Eduardo Fitas, o 5G é uma “oportunidade” não só para melhorar níveis de cobertura de rede, mas também para melhorar a competitividade do tecido empresarial português. Contudo, a controvérsia e a litigância podem anular o efeito desejado.

“Por um lado, [a litigância] resulta num potencial atraso na disponibilidade das capacidades necessárias para estas transformações e, como sabemos, no contexto atual qualquer atraso pode ter custos dificilmente recuperáveis. Por outro lado, é importante garantir que existem condições e, no limite, o sentido de obrigação dos operadores na partilha do investimento necessário ao desenvolvimento das soluções, que permitem capturar esses ganhos de competitividade”, explica ao Jornal Económico.

O gestor defende que “qualquer atraso pode ter custos elevados”, considerando que o tecido empresarial nacional não tem, “de uma forma geral, os meios financeiros para acelerar transformações, de modo a recuperar o tempo perdido”. Mas um eventual atraso não é a única questão: “Existe uma dimensão de colaboração e investimento partilhado que vai fazer a diferença entre ter uma cobertura 5G e tirar efetivamente partido desse investimento”. Ou seja, a polémica em torno da nova rede móvel pode afetar eventuais sinergias ou parcerias, essenciais para estimular a competitividade das empresas nacionais, no plano do 5G.

Para o responsável da Accenture, o “aproveitamento das capacidades transformacionais do 5G para as empresas não pode ser ignorado em Portugal, porque não o vai ser em nenhum dos mercados” que competem com o país. Eduardo Fitas sublinha que o país “necessita urgentemente de transformações” – está em jogo a capacidade das empresas virem a transformar e a lançar novos serviços. “[O 5G] é uma questão de obrigatoriedade e mesmo de sobrevivência, mais do que um adicional valor que podemos ou não capturar”, salienta.

Incumprimento da estratégia nacional do 5G é “risco real”

Eduardo Fitas admite também que “existe o risco real” de que o resultado dos casos de litigância “impacte a motivação e condições” que as partes vão ter para contribuírem para a persecução dos objetivos previstos na estratégia nacional do 5G, apresentada pelo Governo em fevereiro deste ano.

A litigância pode, assim, “impactar o cumprimento da estratégia tal como está deliniada, quer nos timings, quer também na qualidade e adequação das iniciativas que se prevê que o Governo venha a desenvolver como próximo passo”.

Que consequências se podem esperar? “Não acredito que Portugal, a prazo, fique com uma cobertura 5G deficiente”, opina Eduardo Fitas. Não obstante, urge perceber se a “oportunidade para aumentar a competitividade das empresas e para cobrir, ainda melhor, as zonas deficitárias de acesso a banda larga de qualidade” será aproveitada.

“O que acontece é que, se investirmos apenas na cobertura 5G, a mudança será apenas do acesso aos conteúdos ou a serviços já existentes, mas de forma mais rápida. Em muito poucas situações esta mudança vai trazer, de facto, vantagens significativas. E, sejamos honestos, se ficarmos por aqui poderá ser muito difícil para um operador justificar o investimento associado ao desenvolvimento de uma nova rede tecnológica porque os serviços serão, na sua essência, os mesmos e o premium pelo upgrade tecnológico dilui-se muito rapidamente”, argumentou.

Alerta de desinvestimento dos operadores “será sempre para levar a sério”

No atual cenário, os principais players do sector telco (Altice, NOS e Vodafone) alertaram que vão baixar os níveis de investimento no país. O gestor diz que o aviso “será sempre para levar a sério”.

“Estamos a falar de empresas que têm de justificar a sua sustentabilidade e os resultados obtidos aos seus acionistas”, refere. Ora, perante um cenário de incerteza na rentabilização do investimento, “seja pela ameaça de entrada de um novo operador que resulte na erosão ainda maior do valor do mercado, seja porque não está claro qual a compensação que os operadores atuais vão obter pela utilização da sua infraestrutura, cria dúvidas relevantes no mercado de capitais e na capacidade de financiamento dos próprios operadores”.

O vice-presidente da Accenture Portugal lembra que as questões de cobertura podem ser alcançadas “como uma obrigação”. Mas a inovação de produtos e serviços “será sempre mais difícil de alcançar se as condições forem adversas”. Eduardo fitas refere que esse é “talvez” o aspeto “mais importante” a compreender.

O gestor reitera que o 5G precisa de modelos de colaboração entre parceiros e ecossistemas, em Portugal, dada a fragilidade do tecido empresarial. Ora, “se uma das principais partes nessa partilha de investimento se sente menos motivada ou menos capaz para o fazer, existe um risco elevado de comprometer o sucesso do aproveitamento do 5G em Portugal”.

“Talvez essa deva ser a discussão a ter: qual o tipo de investimento e em que áreas, qual o modelo de colaboração entre os operadores, as empresas, a sociedade em geral e os demais prestadores de serviços, que permite maximizar o impacto desta transformação tecnológica para o desenvolvimento do nosso país.

Sobre as intenções da Anacom com o regulamento do leilão, Eduardo Fitas entende que a abordagem tida deveria esclarecer se “existe, de facto, uma falta de concorrência no mercado e se a diminuição dos custos para o consumidor é uma necessidade realista”. “A competitividade do mercado não deve ser medida apenas pelo preço mas também através da inovação dos produtos e serviços de telecomunicações”, conclui.

Jornal Económico | 24/12/2020 | Eduardo Fitas

Eduardo Fitas

Managing Director – Accenture Portugal

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