As tendências apresentadas pela Fjord resultam de uma dinâmica de 'design thinking' que envolve todas as equipas de design da empresa, que opera em mais de 20 estúdios, em cinco continentes. Uma vez por ano juntam-se para, em conjunto, desenhar cenários que deverão moldar o mundo da digital.

A Fjord Trends é um estudo anual que se realiza há 11 anos, e onde se descreve o estado atual do digital e as tendências de futuro na área que vão marcar o quotidiano das pessoas, dos negócios e da sociedade. Mas não só. Também deixa recomendações para que as previsões possam ser aplicadas mais facilmente pelas empresas.

Alessandro Ghetti, Business Design Lead da Fjord, divisão de inovação e design da Accenture Interactive, explicou ao Jornal Económico como foram elaboradas as tendências digitais do futuro e aborda o futuro da tecnologia na vida das pessoas e dos negócios.

1. O mundo físico contra-ataca

Nos últimos cinco anos, tem sido dada grande ênfase à criação de experiências digitais, levando as pessoas a passar mais tempo a interagir através de dispositivos móveis do que pessoalmente. Esta crescente "dependência dos ecrãs", associada a custos reduzidos, vem potenciar uma nova tendência tecnológica. No entanto, um maior número de marcas essencialmente digitais tem vindo a reforçar a importância da presença física, ao mesmo tempo que se tira o máximo partido do digital e da informação, para proporcionar uma melhor experiência ao consumidor.

Recomendações Fjord

  • Considerar o Físico e o Digital como parte de um conjunto e não separadamente
  • Deixar que a tecnologia inspire
  • Aprofundar competências de design

2. Computadores com visão

A digitalização tem tornado as câmaras mais inteligentes, quer em termos do que elas conseguem captar (com os seus olhos) quer em termos da utilidade que dão às imagens captadas (com o seu cérebro). As câmaras inteligentes conseguem assim captar data points e ler esta informação com visual data, que a analisa e transforma sem que sejam necessários inputs de texto. "Olhos" e "cérebros" mais perspicazes estão a tornar os computadores cada vez mais parecidos com os humanos, enquanto o custo relativo da tecnologia de câmara faz com que esta possa ser integrada em qualquer dispositivo.

Recomendações Fjord

  • Repensar os serviços
  • Repensar a abordagem à informação
  • Repensar o contexto de design

3. Escravos dos algoritmos

Com a emergência de novas plataformas - messaging, chatbots, voz - potenciada pela Inteligência Artificial, os consumidores dispõem de novas formas de explorar os mecanismos de pesquisa. A medida que os algoritmos responsáveis pelo funcionamento destas plataformas se tornam cada vez mais poderosos, o seu impacto no marketing tem crescido exponencialmente. No entanto, os algoritmos não dão conta, nem tão pouco se interessam pelos esforços tradicionais da marca, patrocínios de celebridades ou campanhas publicitárias. Assim sendo, e sem a existência de um espaço físico, como poderão as marcas interagir com os seus clientes de forma eficiente?

Recomendações Fjord

  • Conhecer os atuais intermediários
  • Adaptar-se ao novo contexto de marketing
  • Antecipar eventuais reações negativas

4. Máquinas que procuram significado

Existe uma preocupação crescente relativa aos postos de trabalho que serão substituídos ou tornados obsoletos pelos robôs. Porém, esta preocupação não reflete o verdadeiro impacto que a Inteligência Artificial e a machine learning terão no mercado de trabalho. Apesar de alguns postos de trabalho serem substituídos, novos postos serão criados. Para além disso, as máquinas, percecionadas como um outro tipo de utilizador, cada vez serão menos vistas como concorrentes dos humanos e sim como parceiras com as quais se devem criar sinergias.

Recomendações Fjord

  • Pensar de forma cooperativa e não competitiva
  • Promover interação
  • Ser transparente, ser inclusivo
  • Preparar a evolução da força de trabalho

5. Confiança na transparência

A confiança que as pessoas depositam nas principais instituições tem vindo a cair. Facilitando o acesso à origem de uma determinada informação, a tecnologia blockchain surge assim como uma solução para esta quebra de confiança. E por isso que esta mesma tecnologia tem vindo a ser cada vez mais utilizada em instituições financeiras e noutras indústrias. A blockchain vem inspirar e potenciar a nova geração de serviços digitais.

Recomendações Fjord

  • Agir agora
  • Promover confiança
  • Estar recetivo a colaborar

6. Economia ética

As organizações têm vindo a perceber que não podem simplesmente dedicar-se às questões tradicionais de Responsabilidade Social Corporativa e tomar uma atitude meramente reativa. Mais recentemente, os consumidores têm exigido que as marcas participem de forma exemplar e assumam rapidamente os seus próprios erros. Esta mudança coincide com a diminuição de confiança das pessoas, tal como da credibilidade dos governos, constituindo por sua vez uma oportunidade para as organizações assumirem um papel mais relevante na sociedade.

Recomendações Fjord

  • Autoavaliar questões éticas
  • Definir a personalidade e propósito
  • Partilhar objetivos

7. Design fora da zona desconforto

A proliferação de 'design thinking' tem vindo a dissipar a fronteira entre iniciados e especialistas, e a crescente procura por produtos que possam rapidamente atingir economias de escala tem destruído a criatividade inerente ao design. Como consequência, são criados produtos que talham a nível de simplicidade, elegância e personalidade, "características" que deveriam constituir a vantagem competitiva do design. Adicionalmente, o impacto da mobilidade e das plataformas sociais no design são demasiado vinculativos na sua abordagem, levando a uma grande falta de inovação estética.

Recomendações Fjord

  • Dar espaço aos designers para desempenharem a sua função
  • Criar equipas multidisciplinares
  • Responsabilizar os designers pelo seu trabalho.
Cada um de nós deve ter ética no uso das tecnologias

Entre as tendências identificadas este ano não temos apenas tecnologia. Porquê?

Alessandro Ghetti: Nós tentamos ver tendências que têm impacto nas pessoas, apesar do driver serem as tecnologias. Uma das que gosto mais está relacionada com o papel dos algoritmos, como intermediários entre as empresas e os clientes finais. Nós recebemos ou compramos produtos que um algoritmo nos está de certa forma a forçar. Por exemplo, nas lojas online, se eu peço garrafas de água sem especificar a marca são os algoritmos que definem o produto que chega à nossa casa - e nos Estados Unidos os dados indicam que a maior parte dos consumidores não determina a marca neste tipo de produtos. Há canais novos que temos de entender muito bem para fortalecer o marketing das empresas, para que não sejam excluídos dos canais de venda.

Isso é Inteligência Artificial...

AG: Sim. A IA é o motor que permite ao algoritmo evoluir, segundo uma série de pautas que os programadores vão introduzindo. Outra tendência é as 'máquinas que procuram significado", que fala do futuro do trabalho e da possibilidade que as máquinas têm de substituir os homens. Esta tendência explica as oportunidades de trabalhos futuros e profissões que nunca teríamos imaginado que chegassem a existir, como um treinador ético de máquinas. Por exemplo, se eu sou um seguro médico e construo um assistente pessoal com inteligência artificial que tenha de falar com os doentes, é possível que o tom de voz e a maneira como esta máquina comunica tenha de seguir indicações para não tocar na sensibilidade de pessoas que estão a passar por momentos difíceis. Assim, estão a especializar-se humanos para treinar máquinas em temas éticos. Comunicar com as máquinas era algo em que antes não se pensava. São tendências muito interessantes do meu ponto de vista.

E esta última tendência pode colocar em perigo o trabalho das pessoas?

AG: Esta revolução irá gerar os mesmos problemas que outras revoluções industriais geraram. Ou seja, a substituição dos homens por máquinas. O balanço é incerto. Alguns pensadores dizem que não vamos ter trabalho e outros dizem que haverá uma mudança e todos teremos trabalho. Eu creio que a verdade está algures no meio. Não teremos nenhum apocalipse.

As máquinas podem ser nossas colegas de trabalho?

AG: A IA pode ajudar no diagnóstico de algumas doenças graves, como o cancro. Associando robôs a pessoas podemos chegar a um diagnóstico muito mais preciso. Um dos aspetos positivos é a confiança na transparência. A verdade é que estão a nascer muitas empresas, ou pelo menos startups, que se baseiam nesta tecnologia para devolver confiança à rede e ao mundo digital em geral. Do mesmo modo que existem empresas de recrutamento que estão a pensar introduzir blockchain para que a informação sobre os perfis profissionais que aparecem dentro destas páginas ou das redes sociais seja validada. Outro exemplo: se eu compro um carro usado tenho de acreditar nos papéis do vendedor, relativamente aos quilómetros da viatura ou revisões. Se usarmos blockchain, teremos uma validação de que toda a informação prestada é verdadeira. Nada é manipulado.

Não é fácil para as empresas adaptarem-se a tudo isto...

AG: Com a velocidade a que estamos a viver, as marcas têm de construir competências internas e uma rede de pessoas com conhecimentos que permita manter vivo o "design fora da zona de conforto", outra das tendências que identificámos. E preciso criar produtos e serviços inovadores centrados nas pessoas. Hoje em dia, o design encontra-se presente em todos os sítios, é uma metodologia.

Corremos o risco de ser escravos da Inteligência Artificial?

AG: Será que somos escravos da internet e da interatividade constante? Cada um, no seu pequeno mundo, deve ter ética no uso de toda e qualquer tecnologia. Se me perguntar se vamos ser mais dependentes da tecnologia, a minha resposta é... acho que sim.

Jornal Económico | 19/10/2018 | Alessandro Ghetti

Alessandro Ghetti

Business Design Lead – Fjord

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