Num recente cartoon, vi uma imagem de um escritório com o seguinte aviso: "Por falta de robôs disponíveis, tivemos de introduzir humanos na nossa equipa. Cuidado que eles têm emoções e podem ficar irritados".

Parece inevitável e irreversível que a crescente sofisticação da inovação tecnológica conduza a que cada vez mais exista introdução de automação e Inteligência Artificial numa série de serviços e atividades do nosso dia-a-dia.

A eterna e relevante questão da perda de postos de trabalho remete para uma das mais úteis questões filosóficas dos nossos tempos, se não estamos (enquanto humanidade) a perder o controlo do nível de substituição de pessoas por máquinas, e se quando dermos por isso não será demasiado tarde. Se atendermos à sequência histórica, desde a Ia Revolução Industrial, às perdas temporárias de postos de trabalho corresponderam posteriormente, num horizonte temporal mais alargado, melhorias em diversos domínios: social, segurança, bem-estar e democratização no acesso a bens e serviços.

Basta recordar que hoje temos na maior parte dos países desenvolvidos uma percentagem reduzida da população que trabalha na agricultura, comparada com a que trabalhava em meados do século passado, e que o nível de produtividade é incomparavelmente mais elevado. Outro exemplo, a introdução de robôs em fábricas de automóveis permitiu reduzir os custos de produção, tornando mais fácil o acesso a um bem de transporte e permitindo realizar aspirações sociais de muitas mais famílias. Por fim, e para esta série de exemplos, a introdução e a generalização do uso de tecnologia vídeo por controlo remoto aumentou consideravelmente a segurança de vários espaços públicos, fazendo com que recintos e zonas de cidades, antes evitadas, passassem a ter uma muito maior utilização por parte de residentes e turistas, aumentando a qualidade da "habitabilidade" de muitas cidades.

Estes exemplos simples ilustram que a introdução de tecnologia e inovação tem efeitos na redução direta de postos de trabalho, mas tem igualmente benefícios para a sociedade no seu todo. Talvez o leitor, por extrapolação de raciocínio, pense que o efeito do desemprego se tem manifestado historicamente em atividades mais rotineiras e onde não eram exigidos níveis altos de qualificação das pessoas. Se, olhando para trás, esta premissa é verdade, não estou seguro de que continue a aplicar-se no nosso futuro mais ou menos próximo.

Se o que é rotineiro e mesmo o sofisticado podem ser tomados por máquinas, continua a ficar de fora o comportamento humano

A introdução da chamada "Inteligência Artificial" faz com que, face à quantidade "gigantesca" de informação acumulada eletronicamente, existam algoritmos cuja função é irem buscar informação, tratá-la e atuar com nova informação de volta, muitas vezes também chamada "machine to machine". Imagine (e é real), há softwares que já fizeram tantas traduções de tantas palavras e expressões, que conseguem sugerir automaticamente como se faz uma nova tradução e inclusive dar-lhe contexto cultural. Pode também imaginar (porque também é verdade) que há softwares que, "radiografando" e "lendo" as nossas expressões faciais durante alguns minutos, conseguem determinar com um nível de rigor elevado coisas como o nosso estado emocional, ou o nosso nível de seriedade sobre a veracidade de um discurso. Igualmente existem algoritmos que correm sobre redes sociais e podem elaborar notícias ou até produzir guiões para romances ou novelas.

Se o que é rotineiro e mesmo o sofisticado podem ser tomados por máquinas, continua a ficar de fora o comportamento humano. E aí continua o essencial. Continua a ser essencial perceber o que move e como funciona o indivíduo sozinho e em grupo, ao nível micro e ao nível macro. Aparentemente, muitas dezenas de estudos sobre a nossa origem e o nosso funcionamento ainda não determinaram e não esclareceram na íntegra o "mistério" do ser humano, quer na sua vertente biológica quer principalmente na sua vertente emocional.

Recentemente, perguntei ao presidente da Fjord (uma das empresas de design mais reputadas a nível internacional) que conselho daria ao meu filho pré-universitário sobre que curso devia tirar se quisesse trabalhar no mundo do "design" e da inovação. Respondeu de forma simples e direta: Antropologia. Faz todo o sentido.

Luís Pedro Duarte

Managing Director – Accenture Portugal

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