O setor das utilities está a sofrer uma clara disrupção. O negócio da energia está a
adaptar-se ao atual paradigma e exige a introdução de inovação nas diversas componentes estratégicas da cadeia de valor.

O futuro dos Operadores de Redes de Transporte (responsáveis pelo transporte de eletricidade em alta tensão e de gás natural em alta pressão) está em risco. A variação da oferta e procura de energia, decorrente do crescimento das energias renováveis, do autoconsumo e do aumento da eficiência energética; a necessidade de atualização da infraestrutura elétrica; e o desenvolvimento do digital associado ao surgimento de novas tecnologias estão a criar novos desafios no negócio.

O investimento nas energias renováveis continua em expansão, criando novas oportunidades de negócio para os produtores, com elevado impacto na economia. A produção mundial de energia eólica aumentou 14 vezes desde o ano 2000 e espera-se que a de energia solar duplique nos próximos 10 anos.

Por outro lado, os padrões de consumo estão a alterar-se devido ao aumento significativo da eficiência energética dos equipamentos. Nos EUA, por exemplo, o crescimento do consumo total de energia desde 2000 foi atenuado aproximadamente 12%, apenas em resultado da maior eficiência dos eletrodomésticos. Só por si, esta diminuição no consumo traduziu-se numa redução de necessidade de investimento em infraestruturas de transporte de 1,2 triliões de dólares.

Não é expectável uma estabilização desta tendência. A par do aumento da eficiência dos equipamentos, assistimos hoje a uma adoção crescente de modelos de energia descentralizados. A autonomia energética das famílias está cada vez mais perto: o custo da produção de baterias diminuiu 65% desde 2010 e prevê-se um aumento da capacidade armazenamento superior a 5 vezes nos próximos 4 anos. O conceito de trading de energia peer-to-peer está a expandir-se em diversos países do mundo, como em Inglaterra ou Holanda, criando um novo ecossistema energético de prosumers que foge à cadeia de valor tradicional.

Esta mudança paradigmática associada à utilização de outras fontes de produção e alteração de padrões de consumo gera importantes perturbações no fluxo da cadeia de valor das utilities, implicando constante replaneamento e adaptação das infraestruturas de transporte.

O contexto atual do mercado da energia potencia assim a introdução de novas tecnologias que suportem o ajuste do comportamento das redes de transporte, como por exemplo:

  1. Integração de analytics e inteligência artificial na monitorização da rede, potenciando análises preditivas e apoio à decisão;
  2. Simuladores de realidade virtual que transformam a forma como as equipas operacionais aprendem e executam as tarefas no terreno;
  3. Monitorização dos ativos de rede através de dispositivos de alta precisão, Phasor Measurement Units (PMU), medidores de diversos parâmetros operacionais, com uma velocidade de transmissão de dados 100 vezes superior a um SCADA convencional.

Em Portugal, o plano estratégico para desenvolvimento das redes de transporte de energia prevê um investimento de 500 milhões de euros até 2021. Acreditamos que a adoção de novas tecnologias e a aposta no digital potencia maior valor para o negócio dos Operadores de Redes de Transporte, seja pela melhoria da rede na resiliência e eficiência, seja pelo valor que acrescenta aos consumidores. Maiores investimentos e gastos operacionais estarão associados a construção, manutenção e depreciação de ativos de rede, correspondendo, em média, a mais de 70% do total dos gastos, parcela que poderia ser significativamente minorada com a implementação de tecnologia adequada.

O tempo de disrupção em que vivemos deve ser encarado como uma oportunidade ambiciosa para nos posicionarmos “in the new”, e o setor das utilities tem potencial para inovar.

Dinheiro Vivo | 29/10/2018 | Patrícia Loureiro

Patrícia Loureiro

Senior Manager – Accenture Portugal

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