Em 2006, das seis maiores empresas do mundo em termos de capitalização bolsista, apenas uma era tecnológica. Em 2016 só uma é de cariz industrial.

Há uns dias, um colega convidou-me simpaticamente para ser keynote speaker numa conferência. Propus-lhe falar sobre a transformação digital, um tema que me apaixona e se constitui como uma prioridade estratégica do que designamos internamente como a "nova Accenture". Uma empresa cada vez mais ágil, inovadora e um parceiro na entrega de resultados de negócio para os seus clientes, potenciando as suas capacidades digitais únicas e end-to-end: consultoria de negócio, serviços de sistemas e tecnologias de informação e outsourcing transformacional de processos.

Com delicadeza, esse meu colega perguntou-me: "Não queres usar outro título para a tua intervenção? Digital é uma buzzword gasta nos dias que correm"... Portugal é uma economia pequena, com um PIB de menos de 200 mil milhões de euros, bastante dependente do consumo interno e do sector dos serviços. Uma parte significativa das nossas principais empresas baseia-se em bens não transaccionáveis. A nossa população está cada vez mais envelhecida e apresenta um crescimento negativo.

As exportações são insuficientes, apesar do forte contributo dado pelo Turismo nos últimos anos. Neste cenário, temos futuro? Temos. E o digital apresenta-se como oportunidade única para o desenvolvimento económico relevante e sustentável. Algo sem paralelo na história recente do nosso País. Na economia digital em que vivemos, o mercado alvo das empresas não está confinado a territórios ou fronteiras. É possível chegar aos clientes, em qualquer local do planeta, através da internet e promovendo produtos e serviços digitais (baseados em conteúdos e informação de alto valor para as pessoas) ou físicos (através da adequada integração entre a experiência digital e a cadeia logística).

O mercado onde actuamos passa a ser o mundo. E ser líder num nicho de mercado a nível global apresenta oportunidades de criação de valor enormes, incomparavelmente superiores aos negócios tradicionais limitados ao espaço nacional ou lusófono, para onde, tradicionalmente, estão viradas as prioridades de muitas empresas portuguesas. A demonstrá-lo estão os casos de sucesso dos dois unicórnios de matriz portuguesa que tanto nos orgulham.

Empresas que começaram como startups inovadoras e que rapidamente atingiram um valor de mercado superior a um bilião de dólares. A Outsystems disponibiliza uma plataforma tecnológica de desenvolvimento rápido de software (low code) através da cloud para clientes em mais 50 países. A Farfetch é uma plataforma online de comercialização de produtos de moda de marcas de luxo, entregando os seus artigos em cerca de 190 países. Ambas são líderes globais no seu nicho de mercado. Em 2006, das seis maiores empresas do mundo em termos de capitalização bolsista, apenas uma era tecnológica.

Em 2016 apenas uma é de cariz industrial: Apple, Google, Microsoft, Amazon e Facebook fazem parte desta lista e todas cresceram com base num negócio digital. Mas não se pense que este potencial tremendo de criação de valor apenas está ao alcance das empresas nativas digitais. Segundo o World Economic Fórum, entre 2016 e 2025, o potencial de criação de valor através da transformação digital das indústrias ditas tradicionais ascende a cerca 100 triliões de dólares à escala global.

As oportunidades para as empresas são vastas, incluindo o aumento de receitas através de novos produtos & serviços digitais ("growthe core"), redução drástica de custos com base numa nova experiência de cliente digital e operações internas inteligentes e automatizadas ("transform the core") e criação de novos negócios concebidos de base num paradigma digital e atacando o mercado à escala global ("scale the new"). O potencial de criação de valor com o digital é tremendo.

Abre perspectivas únicas e inigualáveis no passado recente para as empresas de base nacional. E, nesta nova economia, Portugal apresenta características únicas para atrair investimento e capital estrangeiro. E também imigração qualificada, que será decisiva tanto para evitar o envelhecimento demográfico, com tudo o que isso significa de bom para a Economia, mas também reter o talento necessário para que as grandes empresas multinacionais possam apostar em Portugal.

Lisboa é a 5.ª cidade mais atractiva da Europa para a criação de startups, de acordo com um estudo do World Economic Fórum de 2016. E Portugal oferece uma qualidade de vida imbatível à escala global: clima, povo, praias, surf, vida nocturna, gastronomia, história, sistema de saúde, segurança. E uma oportunidade única para atrair centros tecnológicos de multinacionais para o nosso País e acelerar o aparecimento de muitas mais startups, algumas das quais um dia poderão chegar a unicórnios.

Existem já vários exemplos que comprovam a vantagem competitiva do nosso País: veja-se os investimentos realizados por empresas como a Bosch, o BNP Paribas, a Google ou a Mercedes em Portugal, criando centros digitais que prestam serviços para os seus grupos empresariais a nível global. Mas não basta atrair investimento estrangeiro e fomentar a criação de startups a partir de Portugal. Temos também de desafiar as nossas principais empresas, ditas tradicionais, a ousar pensar em novos negócios digitais criados de base para uma escala global. Libertando cash flow para investir nestes novos negócios digitais através da transformação digital do seu negócio core.

Existem já empresas líderes a avaliar novas apostas de internacionalização através de negócios de base digital. E preciso acreditar e acelerar esta aposta. A Accenture tem apostado na sua transformação digital. Criou a sua própria organização especializada que tem por missão criar competências digitais e disseminá-las pelos negócios de consultoria, tecnologia e outsourcing. Adoptou um programa agressivo de aquisições de empresas de nicho e altamente inovadoras, que aceleram a transformação do Grupo. Lançou um programa de formação ambicioso, de criação de competências digitais para todos os seus profissionais.

Com esta transformação, em cerca de uma década, a Accenture multiplicou por mais de 10 a sua capitalização bolsista, ultrapassando os 100 biliões de dólares. Parece óbvio que o digital não é uma buzzword. A tecnologia nunca esteve tão barata e a redução dos seus custos é logarítmica. A capacidade de a combinar nunca foi tão fácil através da cloud. E a consolidação de novos métodos de trabalho, dos quais se destacam o design thinking (ideação e teste de soluções), o agile (entrega rápida de produtos mínimos viáveis) e a abertura a ecossistemas de parceiros potenciam a inovação. Apostar no digital: é este o nosso desafio como País; é esta a nossa responsabilidade como gestores. A economia nacional e os portugueses agradecem.

José Gonçalves

Presidente – Accenture Portugal​

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