O vice-presidente da Accenture acredita que os serviços digitais gratuitos na banca têm de acabar. Em relação às fintechs, Luís Pedro Duarte acredita que Portugal vai assumir “um papel a nível europeu”.

A tendência da banca, com a prestação de mais serviços digitais, será impor mais custos para os consumidores. "Vai ser inevitável", considera Luís Pedro Duarte, da Accenture.

O caminho digital dos bancos pode levar ao aumento das comissões?

Luís Pedro Duarte: Sim. Habituámo-nos a ter bancos com sites online 24h e não pagamos sobre isso. O que foi, ao longo dos tempos, sobrecarregando os bancos com um tipo de serviços em que não houve uma perspetiva muito didática (a de que tinha custo), e estamos a chegar ao ponto em que esse tipo de serviços tem de ter o seu preço, que é uma coisa que existe em toda a Europa. Estamos numa altura em que não podemos querer que os bancos sejam competitivos e que os consumidores não tenham pontual ou especificamente nenhum custo associado. Vai ser inevitável que tenhamos preços associados a determinados serviços.

Mas como se põe a cobrar o que antes era grátis?

LPD: Estas coisas não podem eternamente continuar a ser gratuitas. Se quero ter uma relação com um banco online, quero ter segurança nessa relação. E ter segurança exige investimento. Tenho de estar disposto a pagar por isso. Quero um banco 24 horas disponível – há transações às não sei quantas da manhã em que tenho de estar disposto a pagar por elas. Se é conveniente ou não? É uma questão concorrencial. É sempre um bom princípio o pagamento sobre transações específicas, porque cria eficiência para todos. E acho que é o que vai acontecer. Estamos a assistir a bancos na internet que não estão a cobrar nada, mas que eventualmente estão a preparar-se para ter informação sobre a nossa relação enquanto consumidores, para amanhã terem uma relação diferente com outras empresas a fornecer os nossos dados e serviços adicionais e cobrando comissões sobre esses serviços. É fundamental pagar aquilo que achamos que é conveniente para nós. E depois é uma questão concorrencial.

Falando em concorrência, há as fintechs. Como estão os bancos a aproveitá-las?

LPD: O recente avanço regulatório que o Banco de Portugal promoveu e está a promover para as fintechs [...] volta a posicionar Portugal, outra vez, como percursor. Portugal está a ser um país muito propício para o desenvolvimento de start-ups e fintechs. É inevitável que o país vá assumir um papel a nível europeu nesta área. Pela atratividade de pessoas, e pelo aspeto regulatório que é absolutamente decisivo neste ponto. Espanha não tem um único unicórnio. É um país que desenvolve muito o negócio à escala nacional, mesmo no mundo digital. Está na altura de alavancarmos isso. E, eventualmente, de beneficiar do fenómeno do Brexit. Acho que Lisboa, em particular, tem boas condições.

Mas bancos estão a aproveitar a ligação ou a mimetizá-las?

LPD: Acho que as duas coisas.

Pode esperar-se que os bancos façam aquisições de fintechs?

LPD: Acho que os bancos ainda vão comprar fintechs. Os bancos já estiveram mais preocupados com fintechs, porque perceberam que o ambiente de cooperação é o que faz sentido. É um mercado que está sempre aberto a promover aquisições. Mas não tenho conhecimento de casos concretos. Acho é que pode ser uma coisa de médio prazo. Ou até fusões para algumas áreas de negócio. Os próprios bancos estão a lançar as suas start-ups. Ainda é cedo para dizer onde vai acabar, mas este ambiente de cooperação está a ser mais evidente face ao que era há dois anos.

Havia receio.

LPD: Que acho que desapareceu.

Porque as fintechs não se desenvolveram tanto como o esperado?

LPD: Uma coisa é lançar um banco, tem de ter aprovação regulatória, tem de cumprir rácios de capital, cumprir uma série de requisitos que qualquer start-up não está em condições de fazer. Estamos a ver start-ups a participar e desenvolver-se em áreas específicas (inteligência artificial, risco, contact centers).

Jornal de Negócios | 13/11/2018 | Luís Pedro Duarte

Luís Pedro Duarte

Managing Director – Accenture Portugal

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