Fará sentido continuarmos a insistir na compra de ativos com taxas de utilização de 5% e um baixo (ou negativo) retorno financeiro associado?

Em outubro de 1908, com o sonho de democratizar o automóvel, Henry Ford lançou o Ford T, o primeiro veículo produzido em escala e a um custo suficientemente baixo para poder ser adquirido por uma parte da sociedade norte-americana. Este automóvel utilizava uma das tecnologias mais importantes desenvolvidas no século XIX: o motor de combustão interna. Hoje, mais de um século depois, a mobilidade humana caminha a passos largos para uma nova revolução.

Impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico, o automóvel foi evoluindo ao longo do século XX, sobretudo na segunda metade do século. No entanto, apesar de toda a evolução, o paradigma da mobilidade das pessoas ainda assenta num conceito base: a aquisição de um ativo, movido por um motor de combustão interna, que necessita de um humano para ser dirigido.

Tal como em tantas outras indústrias e áreas, o setor da mobilidade e transportes poderá estar prestes a sofrer uma revolução, alavancada em três grandes fatores:

  1. Veículo elétrico: o menor custo das baterias (-81% entre 2010 e 2020), as políticas de incentivos fiscais em grandes mercados. Na China, por exemplo, o incentivo chega até 15.000 dólares por automóvel, enquanto em Portugal o incentivo direto pode chegar aos 2.500 euros por carro, além de um conjunto de vantagens fiscais. Também o "hype" gerado pela Tesla e os seus eventos "à la Apple" fizeram com que 2017 fosse o melhor ano de sempre em termos de vendas mundiais de veículos elétricos.
  2. Mobilidade partilhada: o aluguer de curta duração de automóveis é um modelo que assenta em frotas disponíveis para aluguer imediato, particularmente nos grandes centros urbanos. A revolução digital, em particular a proliferação de dispositivos móveis e a Internet of Things, fez com que este setor crescesse bastante nos últimos anos. Os próprios fabricantes de automóveis já perceberam a ameaça que este modelo representa para o seu "core business", e decidiram entrar neste mercado. A DriveNow, operadora de "car sharing" fundada em 2011, é detida a 100% pela BMW. A Daimler, por sua vez, detém a Car2Go. Estas duas empresas anunciaram a sua fusão em abril, criando um serviço com mais de 3,5 milhões de clientes.
  3. Veículo autónomo: é talvez a maior mudança de paradigma no que diz respeito à mobilidade. Apesar de haver ainda alguma resistência da população em geral (afinal de contas, estamos a falar de carros que se movimentam sozinhos), se ficar provado que a taxa de acidentes dos veículos autónomos é inferior à dos veículos dirigidos por humanos (apesar de o acidente com um carro da Uber no Arizona ter levantado algumas questões a este respeito), o veículo autónomo poderá ser o maior "game changer" do século em termos de mobilidade. No entanto, teremos ainda de esperar alguns anos até que se atinja uma massificação, que terá impactos a diversos níveis, desde fabricantes de automóveis às seguradoras, passando pelo mercado de trabalho como um todo (nos EUA, cerca de 8,7 milhões de pessoas, 1 em cada 15 no mercado de trabalho, estão empregadas no transporte rodoviário de mercadorias).

A conjugação destes três fatores poderá trazer a maior disrupção que a história da mobilidade já assistiu: estaremos a mover-nos para um modelo "as a service", em que passaremos a utilizar enormes frotas partilhadas de veículos autónomos (elétricos ou não), imediatamente disponíveis para nos transportar do ponto A para o ponto B, à distância de um toque?

Afinal de contas, estima-se que, ao longo do seu ciclo de vida, um automóvel particular esteja estacionado cerca de 95% do tempo. Fará assim sentido continuarmos a insistir na compra de ativos com taxas de utilização de 5% e um baixo (ou negativo) retorno financeiro associado? Os próximos anos serão decisivos para esta transformação.

Manuel Hall

Manager – Accenture Consulting

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