O debate sobre o futuro da advocacia está na ordem do dia e são inúmeras as reflexões que encontramos, em várias publicações, sobre o impacto da inteligência artificial (IA) no setor jurídico. Como tem sido afirmado repetidamente, o Direito não pode ignorar os avanços tecnológicos, pelo que os modelos de gestão e de trabalho das sociedades de advogados vão sofrer alterações profundas nos próximos 5 a 10 anos. Muitos analistas já anteveem que a IA será a próxima grande revolução no mundo da advocacia, mas o binómio Direito-tecnologia já está a agitar o setor.

A década da automação

Estamos a dois anos do início daquela que os cientistas preveem ser a “década da automação” com robótica, machine learning e tecnologias como Cloud Computing, mobilidade, Big Data a estarem presentes no dia-a-dia de várias indústrias. Previsões da Accenture apontam para que, em 2020, 25% da economia mundial seja digital. Os clientes procuram cada vez mais empresas disruptivas e que apresentem resultados de forma automática e instantânea o que, à primeira vista, não se coadunaria com a rotina dos escritórios de advogados, tradicionalmente considerados, numa visão que considero desajustada à realidade, como conservadores e avessos à tecnologia. Todos sabemos que muitas das tarefas executadas por advogados (especialmente por aqueles que estão em início de carreira), são repetitivas e mecânicas e ninguém ignora que a transformação digital das organizações constitui, no atual contexto da economia, um meio privilegiado para a melhoria da eficiência, eficácia operacional e diferenciação competitiva. De acordo com um estudo da Accenture, as empresas que implementarem soluções de IA com sucesso poderão aumentar a sua rentabilidade em 38% até 2035.

O reconhecimento destes factos pelo setor jurídico fez despoletar, num primeiro momento, o debate sobre os impactos desta nova realidade no quotidiano dos profissionais do Direito, seguida de um movimento – em Portugal com sinais ainda tímidos, mas cada vez mais consistentes – de definição de estratégias para a capacitação digital. Para agilizar a sua integração no ecossistema de inovação, algumas sociedades de advogados estão a incluir nos seus modelos de governação a função de “Head of Research and Developement” e/ ou de Comités de Inovação.

Tipicamente formados por representantes de diferentes áreas das sociedades de advogados, estes forúns têm a função de gerir todo o programa de inovação e definir as políticas de incentivo à adesão a esta nova cultura digital – que devem ser acompanhadas pelos correspondentes ajustes dos modelos de avaliação dos profissionais. A utilização de robots e outras ferramentas de IA na advocacia tem disparado nos últimos tempos em alguns países. Esta tendência tem sido impulsionada, por um lado, pelos benefícios que a sua utilização traz para os clientes, nomeadamente, ao nível da redução de custos e do aumento da qualidade do relacionamento com o advogado e, por outro lado, pela concorrência que as Legaltechs têm imposto através da forma disruptiva com que se apresentam no mercado. Compreendendo as vantagens da introdução das novas tecnologias nos seus processos, algumas sociedades de advogados começaram a estabelecer parcerias com startups e a trabalhar com consultores especializados para implementar uma arquitetura de inovação com foco no redesenho de procedimentos e criação das suas próprias ferramentas tecnológicas. Os escritórios que estiverem na linha da frente desta jornada de transformação digital – apostando na catalogação de informação, promovendo a migração do seu trabalho para a cloud, a robotização da profissão e, numa próxima fase da inovação, a combinação de dados gerados por todos os colaboradores na cloud com recursos de IA – serão, indubitavelmente, os mais valorizados pelo mercado.

É importante que o setor jurídico adote definitivamente uma atitude empreendedora e visionária através da realização de investimentos em programas de digitalização que tornem as organizações mais produtivas, mais eficientes e, consequentemente, mais lucrativas. E, se estas razões não forem por si só um estímulo para que a introdução de tecnologias inteligentes nas sociedades de advogados comece hoje, sê-lo-á forçosamente a necessidade de criar um novo modelo de trabalho para atrair a nova geração de profissionais.

Millennials e centennials: A nova força de trabalho

Os millennials, e já agora os centennials, que começam a chegar ao mercado de trabalho e que nasceram em plena era da internet, vivem rodeados de tecnologia e querem trabalhar com organizações que os façam sentir relevantes, sejam inspiradoras e ágeis e utilizem as mais recentes inovações digitais. Mais depressa do que imaginamos advogados e máquinas terão de coexistir num ambiente de trabalho colaborativo e, para que esta transição ocorra sem sobressaltos, é necessário (re)qualificar os profissionais. A criticidade da (re)qualificação dos profissionais resulta também evidente quando analisamos a vulnerabilidade das profissões perante as transformações tecnológicas. Um estudo da Accenture Research sobre vulnerabilidade no mercado de trabalho revela que 25% dos atuais postos de trabalho têm alto risco de serem afetadas por práticas produtivas mais modernas até 2020. A advocacia, na sua generalidade, não se integrará neste nível de risco, contudo a nossa profissão não está, de todo, imune aos efeitos da aceleração digital.

O futuro da advocacia

Não sabemos onde a evolução tecnológica nos levará nas próximas décadas mas, pelo menos, enquanto os robots forem máquinas programadas para repetir padrões e a empatia e emoção que baseia a relação cliente-advogado não for replicável, o futuro da advocacia não será dominado pelas máquinas. O futuro da advocacia será certamente liderado pelos profissionais que sejam diferenciadores, ágeis, adaptáveis e que saibam desenvolver habilidades criativas aplicando-as a tarefas de inteligência tática. Mas a nova era digital traz também inquietações aos clientes corporativos relacionadas com os impactos da automação inteligente nos seus negócios. A oferta de serviços jurídicos tem assim de se adaptar rapidamente às novas necessidades do mercado, o que significa que os escritórios devem procurar estar na vanguarda do conhecimento sobre as implicações práticas da IA em matéria de responsabilidade, propriedade intelectual, proteção de dados, regulação e criar equipas especializadas nesta área.

O ensino do direito - Novo contexto

Chegamos assim às faculdades de Direito que assumem, neste contexto, um papel de extraordinária relevância, enquanto formadores e agentes da renovação do mercado de trabalho. Os alunos têm de desenvolver conhecimentos técnicos e competências humanas e numa outra perspectiva aprender a gerir e liderar. Por isso é urgente a integração nos planos curriculares de Direito de disciplinas de i) IA, que prepare os futuros profissionais para reintrepertar os conceitos legais à luz dos avanços tecnológicos; ii) tecnologia, que os familiarize com as diversas ferramentas da IA e as formas de as utilizar e iii) gestão, com foco nos modelos de faturação, planeamento estratégico, negociação e finanças. Em conclusão, a automação e a IA são uma oportunidade incrível para as sociedades de advogados e para os profissionais que as saibam aproveitar. Para a comunidade jurídica este é o tempo de uma nova mudança cultural… que já se iniciou e é irreversível.

ECO, Economia Online | 19/02/2018 | Joana Pinto

Joana Pinto

Diretora do Departamento Jurídico da Accenture Portugal

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