Skip to main content Skip to Footer

Força de trabalho será suportada por "mercados de talentos"

Entrevista a Aurélia Sousa, Managing Director
na Accenture Technology

O mercado laboral terá de mudar num futuro próximo. Organizações digitais exigem estruturas mais flexíveis e mais flat.

O rápido avanço da introdução das tecnologias na vida quotidiana das pessoas está a obrigar as organizações a reinventarem-se para sobreviver. Exige-se uma profunda alteração do mercado de trabalho, sustentado no nascimento de organizações on-demand, como soluções à medida, o que altera, e muito, os padrões ainda tradicionais do mundo do trabalho. Para isso, a força de trabalho terá necessariamente de mudar, tornando-se mais flexível, menos hierarquizada, e de se adaptar às novas exigências. Esta é mais uma das cinco tendências claramente identificadas no estudo Technology Vision 2017, realizado pela consultora Accenture a nível mundial sobre o impacto das tecnologias nas empresas, nos negócios e na vida das pessoas.

"As empresas que já nasceram digitais, com líderes inteiramente digitais, é que estão a definir esta tendência. Aliás, uma das previsões deste estudo da Accenture é que nos próximos cinco anos, os líderes das empresas atuais sejam outros", afirma a propósito deste tema, Aurélia Sousa, sénior manager da Accenture Technology. Segundo a especialista, esta tendência mostra claramente que as empresas têm de começar já - pelo menos começar - a criar um "mercado de talentos". Ou seja, criar uma espécie de força de trabalho que integre quer os seus colaboradores internos quer os colaboradores externos, criando uma espécie de mercado de profissionais disponível e ajustável às suas necessidades futuras.

A criação destes mercados é o primeiro passo para tornar as organizações mais flexíveis, tornando-as estruturas menos hierarquizadas, mais flat. "A forma como vamos fazer negócios no futuro leva a que as organizações sejam pressionadas a responder a novas necessidades de competências de determinada natureza, e o modelo de trabalho tradicional, com mais de um século, não vai dar resposta a essa pressão", explica. Daí que os modelos mais hierarquizados tenderão a ser dissolvidos e substituídos por este novo tipo de força de trabalho, constituída em boa parte por profissionais freelancer.

"Esta será uma profunda alteração no mundo dos negócios, a mais profunda desde a revolução industrial”, afirma Aurélia Sousa. Por exemplo, a Procter &. Gamble, uma empresa com 180 anos, já está a fazer estas transformações, criando estes mercados de talento para aumentar a sua força de trabalho com base em freelancers. Concluíram que, nestes dois últimos anos de implementação, conseguiram atingir resultados mais rapidamente e de uma forma mais económica porque foram mais eficientes na entrega do trabalho. Por isso vão continuar a investir nesta prática.

Trabalho online a crescer

Aurélia Sousa apressa-se a explicar também que isto não quer dizer que deixará de haver trabalho fixo: "Claro que haverá sempre a necessidade de equipas fixas nas organizações do futuro, mas a tendência aponta claramente a necessidade de abrir caminho a estas dinâmicas mais colaborativas." Aliás, alerta que também aqui se levanta uma importante questão social, que deverá ser tratada com tempo, por cada uma das economias envolvidas neste processo de mudança. Na sua opinião, estas mudanças vão acontecer naturalmente - isto não quererá dizer que as pessoas serão todas despedidas - pois a adaptação vai acontecer gradualmente.

Esta tendência será materializada de duas formas: por um lado, à necessidade cada vez maior da existência de plataformas de trabalho on-demand, colaborativas, e por outro lado, exige a necessidade de novas formas de gerir o trabalho online e esta nova força de trabalho. Estas plataformas terão de permitir que a empresa encontre rapidamente as capacidades e competências que necessita em tempo útil. Nos Estados Unidos, esta questão está já bastante mais avançada do que em Portugal, onde há maior flexibilidade no mundo do trabalho. Veja-se, por exemplo, o caso da Slack, plataforma de gestão de trabalho online, que em 2014 tinha cerca de 100 mil profissionais inscritos e atualmente já tem três milhões.

Ora, esta tendência não levanta apenas novos desafios às empresas, levanta também aos profissionais. Os profissionais do futuro - mas futuro bem próximo, quase presente - terão de ser mais capacitados, mais flexíveis, com e adaptarem-se às novas exigências que poderão passar por estar a trabalhar de forma mais permanente com determinada empresa e como freelancer em outra, ou oscilar entre uma situação e outra. "Verificamos que atualmente as novas gerações, os millennials, não se querem adaptar às empresas, querem que as empresas se adaptem a si, e os novos líderes digitais têm de compreender estas novas necessidades", refere Aurélia Sousa.