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O Digital pode duplicar o crescimento do PIB

José Gonçalves, Presidente da Accenture Portugal, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Como fazer a aposta no digital e adaptar a produção e o talento aos robôs. A visão do presidente da Accenture em Portugal.

O crescimento da economia portuguesa é sustentável? Pode ser melhor com o digital?

Que é um crescimento positivo, não há dúvida. Temos, na Accenture, o digital pensado a três níveis complementares. Como digital, entenda-se inventar novos negócios através de plataformas digitais. Por exemplo, a Netflix e o Spotify pegaram num negócio tipicamente físico, que era ir buscar DVD ou CD, e tornaram-no completamente digital. A segunda vertente é proporcionar uma experiência de cliente muito mais efetiva. Com o homebanking, que pode ser colocado em vários setores para os clientes não precisarem de ter uma deslocação física; e, terceiro, através de tecnologias digitais, tendo mais eficiência interna nas empresas através da robotização. Estas capacidades tecnológicas vão ter um impacto enorme no sucesso das empresas e num aumento na economia. Há estudos que dizem que podemos duplicar o crescimento do PIB se formos apostarmos no digital.

Portugal está a fazer esse caminho?

Portugal está a começar a fazer esse caminho.

Mas está atrasado?

Diria que está a meio da tabela. Portugal está a fazer um excelente trabalho na transformação das empresas para serem mais efetivas na relação com clientes ou na eficiência operacional. O desafio que se pode lançar às empresas é de olharem para o mundo de forma mais efetiva. O desafio passa por deixarmos de nos restringir ao mercado do país, ou dos países mais confortáveis para as empresas portuguesas, e inventar negócios digitais que possam ter sucesso no mundo. Isso pode passar não só pelas empresas transformarem os seus negócios ou criarem novos negócios, como fazer ou acelerar duas coisas fundamentais: atrair para Portugal centros multinacionais de tecnologia – temos de acelerar isso – e, segundo, ajudar a criar mais startups e empresas digitais a partir de Portugal que nos ajudem a olhar para o mundo como o nosso mercado. Se o conseguirmos fazer, há um efeito duplo na economia: vamos exportar muito mais produtos, o que são boas notícias para a nossa economia, e vamos ser capazes de atrair talento qualificado internacional e reter o talento nacional. Seriam muito boas notícias para uma economia com mais consumo interno, mais rendimentos e com mais receitas de impostos.

A Accenture contratou 600 pessoas em 2016, neste ano está a caminho das 500. Em que áreas é que vão trabalhar, numa altura em que se fala tanto de robôs que vão substituir os humanos?

Advogamos que os clientes têm de se transformar para serem mais efetivos, e nós temos de fazer o mesmo. A Accenture tem de se transformar para potenciar o digital e há três impactos muito diferentes nas três linhas em que atuamos. Na consultoria havia um paradigma de pensar o negócio e depois logo se via como as tecnologias o iriam suportar – hoje isso acabou. Costumamos dizer que todos os negócios são digitais e isso requer que a consultoria faça um mix de competências tecnológicas e digitais. É uma mudança de paradigma, o que quer dizer que estamos a recrutar pessoas com background de gestão e economia, mas também de engenharia e tecnologia. A segunda área de atuação é o desenvolvimento tecnológico e de aplicações; estamos a apostar na cloud e em novas arquiteturas mais ágeis e flexíveis para promover sistemas mais adaptados à necessidade de os clientes serem mais rápidos no mercado. Isto implica contratar pessoas com skills [competências] tecnológicas, mais orientados para a cloud e mais inovadores. Terceiro, na área de BPO, de outsourcing de processos, em que assumimos processos de clientes, automatizamos e tornam-nos mais inteligentes, estamos a fazer a introdução de tecnologia de robotização e inteligência artificial, o que remete para os humanos um trabalho mais de valor acrescentado e que permite automatizar trabalho repetitivo. Nas três áreas, há uma mudança de paradigma no recrutamento.

Em junho, o primeiro-ministro esteve em Braga no vosso centro de alta tecnologia, que emprega cem engenheiros. Vai contratar mais gente para Braga? A ideia é chegar a que número?

Nós queremos fazer crescer os centros multinacionais, porque prestam serviços para fora e têm um potencial de crescimento enorme. Temos talento qualificado em Portugal, temos uma competitividade única nos nossos serviços, pessoas flexíveis e que falam línguas de forma expedita, e é relativamente fácil convencer uma firma como a Accenture a investir em Portugal para exportar para fora. Queremos reforçar e queremos rapidamente duplicar o número de engenheiros em Braga. Temos também um centro tecnológico em Lisboa, que está a crescer a um ritmo relevante. Essa é uma aposta, mas há outras. Na vertente de criar em Portugal negócios digitais, temos a obrigação de, pela rede internacional que temos na Accenture, apoiarmos as startups para chegarem a essa rede de clientes. Estamos já a fazê-lo com um conjunto de startups. Recentemente, assumimos um conjunto de compromissos com a Talkdesk para chegar a clientes nossos internacionais. E ajudar os clientes tradicionais a serem efetivos com o digital, mais competitivos, inovadores e a ousarem competir no mercado internacional. É um contributo para que sejam melhores e possam ter mais sucesso.

Qual é a sua expectativa em relação à Web Summit deste ano?

A perspetiva é que se acelere o fantástico ecossistema que se criou no ano passado. Portugal está a ser visto como um país altamente inovador, com bom talento qualificado, que foi capaz de criar uma atratividade para o ecossistema de startups, e a Web Summit deu um contributo decisivo para isso. No ano passado ouviram-se críticas de que foi mais networking do que negócio. Com que perceção ficou? O networking é muitas vezes a base de criação de negócio. Pode não ter resultados diretos, porque é preciso passar da ideia ao plano de negócio e à ação, mas sentimos que há um conjunto de startups que já muito nos orgulham. Não terá sido só a Web Summit a fazê-lo, mas claramente dinamizou e influenciou. A cimeira teve um contributo excelente e com certeza ajudará a acelerar esse processo.

Nas operações e robótica têm 400 trabalhadores. Onde é que vai buscar talento especializado?

Portugal tem um desafio a nível do talento. Obviamente que quanto mais se introduzir a componente digital, vão ter de acontecer duas coisas complementares: primeiro, vamos ter de transformar a força de trabalho que temos hoje, o que implica formá-la em tecnologias digitais e a forma como ela pode ser aplicada no negócio, inclusive nas operações. É isso que estamos a fazer, a converter as pessoas que temos para perceberem o potencial da robótica e como isso pode dar um ganho de eficiência brutal às operações. A outra vertente que acho que temos de reforçar é ao nível da formação. O mundo está num ritmo de mudança brutal, o paradigma que havia quando entrei para a universidade, em que estudávamos, tirávamos o curso e íamos trabalhar, vai acabar. Há um estudo que demonstra que 65% das profissões que os nossos filhos vão ter hoje não existem. Mais importante do que ter um curso que tecnicamente é muito bom e depois vou para o mundo do trabalho, é a educação e incentivar a aprendizagem contínua, a criatividade, o espírito crítico e a capacidade de trabalhar em equipa para chegar a uma solução mais robusta. É algo que Portugal está a fazer, mas precisa de acelerar, para no futuro termos uma força de trabalho nova, que já não vai ter de ser transformada, porque se entra no mercado de trabalho com outra preparação.

Sugere alterações na política de educação em Portugal?

Está a ser feito um caminho interessante. O governo lançou uma iniciativa que pretende ajudar a transformar a workforce com competências digitais e aproxima a academia para haver uma interlocução melhor com as empresas e perceber o que faz mais sentido em termos de skills que têm de ser adquiridas. Portugal é visto como um dos melhores ensinos do mundo, em termos técnicos, e reconhecemos isso na Accenture. Os nossos recursos estão bem avaliados quando vão lá para fora, mas quando falamos em termos de comunicação, de liderança, de trabalho em equipa, de exposição de ideias de pitching, temos exemplos como os EUA, onde o ensino tem esse enfoque. Aí, devemos apostar em ser mais fortes.

É possível converter todos os trabalhadores para a era do 4.0, da robótica?

É uma ideia que devemos ter em mente, mas sabendo que a disrupção digital não vai acontecer de um dia para o outro. Por exemplo, há muitas tarefas transacionais que se podem robotizar, mas também reconhecemos que há tarefas em que, pela sua complexidade e pela necessidade de intervenção humana, não é possível fazê-lo.

Diz que as universidades formam bem os alunos, mas que é necessário pensar nas profissões do futuro. O meio académico está demasiado focado no passado?

Essa é uma conversa que dura há muitos anos. Nós só temos a dizer bem dos alunos que recebemos. Não só mostram um desempenho acima da média como, quando são expostos a projetos internacionais, são bem avaliados e qualificados.

Refere-se apenas às engenharias ou também a economistas e gestores?

A todas as funções. Os nossos centros de tecnologia e de operações inteligentes servem 40 países no mundo e não tivemos um único cliente que tenha decidido rescindir o contrato por ter sentido que as coisas não funcionavam bem. Pelo contrário: todos eles se sentiam impressionados por verem a qualidade que temos nas pessoas e pela capacidade de falar a língua e a flexibilidade para evoluir.

Hoje, 50% do que a Accenture faz já são projetos digitais. Pode dar um exemplo de como estas áreas estão a tornar as empresas mais competitivas?

Num banco, empresa de energia ou telecomunicações, dois dos gigantes fatores de custos são o call center e o backoffice. Há uma visão da Accenture que define que temos de ser capazes de colocar no call center assistentes virtuais capazes de responder a grande parte das questões dos clientes. E quando no backoffice for necessário aceder a uma fatura ou fazer uma cobrança, tarefas repetitivas, podemos aplicar a robotização. Há clientes com ambição de terem em 2020 uma redução de pessoas no call center para 20% da força atual e passarem a ter 10% das pessoas que têm no backoffice. Isso permite libertar pessoas que hoje estão a fazer trabalhos repetitivos para tarefas de maior valor acrescentado e mais motivantes.

Dinheiro Vivo | 28/10/2017 | José Gonçalves