Skip to main content Skip to Footer

Tecnologia é o caminho também para as seguradoras

Pedro Lopes, Managing Director da Accenture Technology em entrevista ao Jornal de Notícias.

Tecnologia é o caminho também para as seguradoras

Pedro Lopes, Managing Director da Accenture Technology em entrevista ao Jornal de Notícias.

A discussão acerca das implicações que a esfera digital e as suas especificidades tecnológicas vieram trazer para a vida quotidiana dos cidadãos, das instituições e das empresas está, cada vez mais, na ordem do dia. De tal forma que o campo empresarial se vê, no presente, praticamente obrigado a ter de alterar ou, pelo menos, reformular muitas das suas práticas, com vista à preparação de um futuro que promete ser exigente e desafiador. As seguradoras não ficam, também elas, imunes a este fenómeno. Por isto mesmo, a Real Vida Seguros propôs uma reflexão sobre os “Seguros no Mundo Digital” – uma temática que serviu, igualmente, como pano de fundo para o seu Encontro Anual, decorrido ontem de manhã, no Palácio da Bolsa, no Porto. O evento foi organizado em parceria com o “Jornal de Notícias”, a TSF e o “Dinheiro Vivo”, tendo contado com a participação de várias figuras relevantes, inseridas em diversos setores da sociedade portuguesa. Num primeiro momento, logo após um discurso introdutório de Gonçalo Pereira Coutinho (presidente da Real Vida Seguros), deu-se uma conversa que teve o “Futuro das Empresas no Digital” enquanto assunto transversal. O diálogo foi conduzido por David Pontes, subdiretor do JN, e o protagonista foi Pedro Lopes, managing director e responsável tecnológico da Accenture, uma empresa global especializada em consultoria de gestão. Em síntese, Pedro Lopes ofereceu um ponto de vista que aponta no caminho de uma maior atenção por parte das empresas àquelas que são as exigências dos seus públicos. “Os clientes querem já, na maioria, que lhes seja disponibilizada uma oferta personalizada e adequada às suas necessidades”. De modo a fazer face a esta realidade, as companhias de seguro poderão ter “na Internet das coisas e na inteligência artificial aliadas fundamentais”. O managing director defendeu também que “as se- devem abandonar uma lógica reativa, em função dos acidentes, para adquirirem uma política preventiva”. Questionado a propósito do estado das empresas em Portugal, mais concretamente na sua relação com o campo digital, Pedro Lopes expressou uma visão crítica, considerando existir um atraso claro em relação a determinadas nações estrangeiras, onde o avanço tecnológico se faz notar com maior evidência. “Diria que, no nosso país, ainda estamos um pouco atrás daquilo que se passa lá fora e, portanto, julgo que devemos dar passos em frente no sentido de colmatar essas falhas. Nos Estados Unidos ou no Reino Unido, por exemplo, o tipo de ofertas existente é muito diferente daqui. Essas oportunidades vão acabar por cá chegar, mas de facto nós somos um sítio pouco atrativo para companhias mais globais”.

Necessidade de reinvenção

Ainda na questão da virtualidade que alguns dos atuais nomes cimeiros do mercado assumem por inteiro e de como poderá isso influir na ação das seguradoras, o managing director da Accenture deixou uma opinião clara: “As companhias de seguro vão continuar a existir, mas em moldes diferentes dos atuais, o que obrigará a toda uma reinvenção dos seus modelos de negócio”. O fecho desta conferência ficou assinalado por um debate, moderado pelo subdiretor da TSF, Anselmo Crespo, no qual intervieram Daniel Bessa (ex-ministro da Economia), David Pereira (presidente da Arprose) e Paulo Ramos (vice-presidente da Yext). Nele, fez-se uma consideração aprofundada sobre o tema que marcou o evento.

“Estamos perante uma revolução imparável”

À margem do encontro promovido pela Real Vida Seguros, Pedro Lopes concedeu uma pequena entrevista ao JN. O managing director da Accenture aproveitou para reiterar alguns dos pontos focados na conversa com David Pontes, salientando a necessidade de empresários e responsáveis pelas seguradoras adotarem uma postura de maior abertura ao campo digital. Além disso, fez questão ainda de deixar um conselho destinado aos jovens empreendedores que agora fazem chegar os seus projetos ao mercado.

- Que grandes alterações é que prevê que se possam registar nas companhias de seguros a longo prazo?

Julgo que há vários fatores que convergem para uma grande transformação no setor. Cada vez mais, os canais digitais diretos estarão envolvidos na relação entre a seguradora e o segurado. Terá também de haver uma muito maior proximidade entre estes dois, que não se baseie na renovação da apólice. Outra componente está relacionada com a criação de ecossistemas. Ou seja, estas companhias terão de se associar a determinado tipo de parceiros para conquistar novos elos na cadeia de valor dos clientes.

- Quer então dizer que os clientes irão adquirir um perfil distinto e que terão expectativas diferentes em relação a todo este processo?

Os clientes estão, sobretudo, à espera de serviços de conveniência. O mesmo é dizer que o que se pretende não é algo que garanta somente uma cobertura do risco, mas que esteja adaptado às circunstâncias e ao contexto específico de cada pessoa: do modo como conduz ou trata da sua própria saúde. Em suma, trata-se de um cenário onde vai estar personalizada a realidade de cada um.

- Algumas ferramentas tecnológicas já estão disponíveis há bastante tempo. Porque é que só agora se deu este turbilhão de mudanças?

Porque se está a assistir, no presente, a uma democratização da tecnologia. Só muito recentemente é que as pessoas puderam ter acesso às novas tecnologias de uma forma massiva, apesar delas já cá andarem há algum tempo. Hoje em dia, mais de metade da população mundial tem acesso a comunicações móveis e os smartphones estão massificados, mas é um fenómeno novo.

- Sente que ainda há, em Portugal, alguma relutância da parte de alguns setores económicos em modernizarem-se tecnologicamente?

Sim. Na minha opinião, isso acontece em grande parte devido a algum desconhecimento do que a tecnologia pode fazer pelo mundo dos negócios. No entanto, estamos a assistir, pelo menos no ramo da consultoria, a um interesse cada vez maior e, finalmente, estão a dar-se alguns passos no sentido de uma maior digitalização da economia.

- O que é que responde então aos que assumem uma posição desconfiada e não tão progressista em relação ao mundo digital?

Estamos perante uma revolução tecnológica imparável, tal como todas as outras. Independentemente de poder haver visões mais conservadoras, isto veio para ficar. Se olharmos para os membros das novas gerações, vemos que eles adotam estas tecnologias desde pequeninos. É um movimento sem retorno. Não há que combater. Pelo contrário, o que há a fazer é aderir e retirar o melhor proveito.

- Considera que há o risco de que a uma evolução tecnológica galopante corresponda uma menor necessidade de trabalho humano e, portanto, um aumento expressivo de desempregados?

- Considera que há o risco de que a uma evolução tecnológica galopante corresponda uma menor necessidade de trabalho humano e, portanto, um aumento expressivo de desempregados?

- Enquanto responsável tecnológico de uma empresa, que conselho deixa aos jovens empreendedores nacionais?

A grande recomendação que dou é que não basta uma ideia. É necessário um conjunto de aptidões de gestão e de posicionamento de produto e marca que vão para lá de ter apenas uma boa ideia. O meu conselho é que esses jovens se associem a parceiros que os possam ajudar a garantir essas competências. Para isso, é necessária uma maior colaboração de outros players no desenvolvimento de negócios de base.

Jornal de Notícias | 19/11/2017 | Pedro Lopes