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NOTÍCIAS


A economia digital está a acelerar a mudança

Entrevista a Manuela Vaz, Managing Director da Accenture


Manuela Vaz afirma que a economia digital está a acelerar a mudança das empresas e dos consumidores.

A transformação digital é o principal fator de mudança para as empresas, os produtos e serviços, e o comportamento dos clientes — considera Manuela Vaz. Em entrevista à "Vida Económica", a administradora da Accenture afirma que a transformação digital acontece com as pessoas e para as pessoas, pelo que o fator humano vai continuar a ser determinante. "Os tipos de trabalhos vão mudar, vão ser diferentes" — destaca Manuela Vaz. Segundo refere, a transformação digital é um motor para as empresas.

Vida Económica: Quais são as principais tendências na ação desenvolvida pela Accenture no apoio às organizações?

Manuela Vaz: A ambição da área que lidero é "Construir o amanhã para as nossas pessoas, os nossos clientes e os seus clientes". Um dos pilares fundamentais é a aceleração da transformação digital. Estamos comprometidos em trabalhar lado a lado com os nossos clientes, ajudando-os a manterem-se à frente, na senda da inovação e digitalização em qualquer das fases deste processo em que se encontrem. Somos uma confederação de cinco negócios (Estratégia, Consultoria, Digital, Tecnologia e Operações), o que nos permite uma oferta completa e integrada. Se o ano *2016 nos ensinou alguma coisa, foi que as tecnologias digitais e a hiper-conectividade estão a colocar a inovação liderada pelos utilizadores mais rapidamente do que nunca no mercado. As organizações de sucesso são hoje aquelas que melhor se adaptam e respondem à mudança contínua. Permita-me referir, neste contexto, dois estudos que publicámos no início desde ano, as Fjord Trends 2017, que examina as mais significativas tendências digitais emergentes e que devem impactar as organizações e a sociedade durante 2017, e o Accenture Technology Vision 2017, com um mote que me parece muito significativo - tecnologia para as pessoas.

VE - A transformação digital deve ser a principal prioridade para as organizações?

MV - Sem dúvida. As tecnologias cloud, e-commerce, mobilidade, big data, e mais recentemente inteligência artificial têm um efeito combinatório exponencial. Este efeito introduz uma mudança enorme e acelerada nas organizações, na vida e nas sociedades. O Accenture Technology Vision 2017, um estudo robusto a nível global que já vai na 10ª edição, incorpora a opinião de mais de 5400 executivos em 31 países, incluindo em Portugal. O nosso país aparece na cauda da tabela quando perguntamos aos empresários se têm visto nos últimos dois anos os seus negócios serem transformados por esta revolução digital. Os nossos empresários ainda não estão perfeitamente cientes da transformação que está aí. Isto só mostra que temos uma oportunidade muito grande. Paralelamente, há um outro exercício que foi feito sobre o quão aptos poderíamos estar como país nesta revolução digital e no qual aparecemos a meio da tabela entre os mesmos 31 países. Na Accenture entendemos que temos esse papel de criar o futuro e de trabalhar com os nossos clientes na mudança. Temos feito muitos workshops com clientes para partilhar a nossa visão do que é esta transformação digital e do que ela pode ser enquanto motor de negócio.

VE - De acordo com o Accenture Technology Vision 2017, as pessoas devem estar no centro das prioridades?

MV - O foco não é na conceção do produto, mas sim na conceção da experiência para o consumidor. De facto, sempre que uma experiência é personalizada, ou quando a tecnologia antevê as necessidades das pessoas, estamos a ser colocados no comando para que os nossos desejos sejam percebidos. À medida que a tecnologia se torna mais sofisticada, deixa de ser a tecnologia a levar à mudança, para sermos nós próprios. Ainda há muito mais a fazer na forma como as empresas se podem relacionar com os seus consumidores. O consumidor tem hoje uma expectativa enorme relativamente à forma como interage com as organizações e com os serviços. Nomeadamente, na indústria de turismo, onde Portugal pode desempenhar um papel muito relevante, apesar de haver muito caminho feito, também há ainda muito a fazer. O necessário processo de alteração de cultura nas organizações é algo que está a levar o seu tempo, mas que já começou acontecer. Temos que ter as forças de trabalho preparadas para entregar estas experiências. Isto exige investir nas pessoas.

VE - Pensando na realidade das empresas do Norte de Portugal, e nos desafios que enfrentam com a transformação digital, qual considera ser o aspeto mais positivo?

MV - Nós, portugueses em geral, e as empresas no Norte em particular, temos uma capacidade de nos reinventarmos. Ao longo do tempo, termos revelado essa atitude. Acho que não temos medo de olhar para fora e de mostrarmos capacidade de inovar. Nesta vertente, há bastante dinamismo por parte das empresas.

VE - A ideia que existe sobre a evolução tecnológica e os efeitos negativos em termos de redução dos postos de trabalho não corresponde à verdade?

MV - Esta transformação digital acontece com as pessoas, para as pessoas e não acontece sem elas. De facto, a tecnologia tem de ser posta a trabalhar para as pessoas e com elas. O trabalho muda seguramente. Por exemplo, 65% dos empregos que as crianças de hoje vão ter são trabalhos que desconhecemos atualmente. O trabalho vai mudar e com isso vêm todos os imperativos da formação e capacitação das forças de trabalho. É este ajuste que vamos ter de fazer nos próximos tempos como organizações e mesmo como sociedade.

VE - Essa transformação tem de ser desenvolvida a nível interno com as pessoas das organizações ou é necessário envolver pessoas externas para acrescentarem outra visão?

MV - Há um conjunto de elementos que levam a que seja muito difícil que a disrupção nasça dentro das organizações. A inovação sim, mas disrupção é complicado. Os novos modelos de negócio acontecem mais quando as organizações não ficam presas à estrutura clássica.

VE - De acordo com as estimativas da Accenture, dentro de três anos, cerca de 50% de toda a força de trabalho nos Estados Unidos não vai ter patrão. Essa tendência já se vê em Portugal?

MV - Essa é outra das tendências — os "Marketplaces" de Talento. Acho que em Portugal ainda não sentimos muito, mas existem já plataformas, hoje, onde, quando um cliente submete um projeto, há um conjunto de pessoas que estão credenciadas para o fazer e candidatam-se ao trabalho. Se eu comprar um trabalho a determinada pessoa, depois no final vou pontuar a execução. Estes sistemas acabam por se autorregular, conduzindo à opção pelos melhores colaboradores. A Accenture está já a implementar este tipo de modelos e em alguns casos também trabalhamos com pessoas que não são da Accenture, mas fazem parte do nosso ecossistema de parceiros.

PERFIL DO GESTOR

Manuela Vaz assumiu novas funções de Managing Director da Accenture nos setores de Retalho, Indústria, Transportes e Bens de Consumo, dirigindo também o escritório da consultora no Porto. Acompanha de perto a atividade das principais empresas e destaca a capacidade de inovação das organizações portuguesas traduzida em novos produtos e serviços. A administradora da Accenture é licenciada em Engenharia de Sistemas e Informática pela Universidade do Minho e conta com mais de 22 anos de experiência profissional.


(Vida Económica | 17/03/2017)