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NOTÍCIAS


Regulamentação atrasada no mundo dos novos negócios

Entrevista a Rui Barros, Managing Director da Accenture Technology


As empresas digitais não estão apenas a conquistar mercado, mas sim a defini-lo, a participar na regulamentação, na construção de regras e na ética.

Se dois veículos autónomos tiverem um acidente, de quem é a culpa? E quem paga os respetivos danos e seguros? Os donos das viaturas, os construtores ou produtores de software? Estas e outras dúvidas relacionadas com o avanço da tecnologia procuram respostas urgentes. Segundo o estudo Technology Vision de 2017, realizado pela Accenture, multinacional de consultoria, com presença direta em Portugal, que identifica a nível mundial as cinco grandes tendências na área das tecnologias, esta é, de facto, uma questão premente num mundo cada vez mais digital. Uma dessas cinco tendências é o desenvolvimento acelerado da Inteligência Artificial, da automação e da robótica, cada vez mais humanizada e próxima dos consumidores, o que conduz a uma outra mais urgente: a da necessidade de nova regulamentação num mundo ainda inexplorado.

Segundo esta tendência, a quinta e última deste research, "as empresas estão a definir o próprio mercado, e não apenas a conquistá-lo. Serão estes players digitais que irão definir o mercado que teremos no futuro", como explica Rui Barros, managing director da Accenture Technology. Falamos de padrões tecnológicos, de normas éticas e regulamentares, ou seja, todo um conjunto de regras fundamentais para que as novas empresas digitais possam desenvolver os seus negócios. Vejamos, por exemplo, a questão dos veículos autónomos, em desenvolvimento e muito perto da comercialização, uma vez que já várias marcas de automóveis apresentaram os seus projetos nesta área, perspetivando-se que alguns deles possam circular nas estradas já a partir de 2020.0 Michigan foi o primeiro estado norte-americano a legislar a realização de testes, a utilização e a eventual venda de carros autónomos. Mas para isso foi fundamental a colaboração de grandes grupos como a GM, a Uber, a Toyota, a Google, entre outros que estão na linha da frente desta indústria, e que associadas ajudaram, e ainda ajudam, os governos a desenhar essa mesma legislação.

"As indústrias de Inteligência Artificial estão unidas em consórcio para definir regras para este mercado. Trata-se de um tema ético, por isso as regras deverão ser muito bem pensadas”, afirma Rui Barros. No caso dos automóveis autónomos, por exemplo, se um estiver em vias de acidentar e tiver de proteger um peão ou o passageiro do carro, qual a decisão que a tecnologia toma? Se tiver um acidente contra um autocarro com 40 pessoas, quem é que o veículo protege, o passageiro ou o autocarro? Este tipo de desafios, não está, pois, muito claro para ninguém, conforme alerta o especialista da Accenture. Todas estas regras estão por definir e terão de acontecer num futuro próximo, pois o estudo da consultora demonstra que a regulamentação está a ficar bastante atrasada face ao rápido desenvolvimento dos novos negócios. O inquérito realizado a cerca de 5400 executivos em 31 países sobre as suas expectativas relativamente ao impacto das tecnologias nas suas empresas mostra que 61% dos inquiridos acham que os modelos de negócio e as tecnologias estão a evoluir mais rapidamente do que a regulamentação.

Colaborar para liderar

Ou seja, as indústrias tipicamente digitais têm agora uma responsabilidade acrescida. Se anteriormente tinham de seguir as regras para não serem penalizadas, agora vão ser elas a ajudar a definir as próprias regras e a ética dos novos comportamentos. E estão a fazê-lo, pois só assim poderão atuar com segurança no mercado que estão a abrir. Por exemplo, a Uber está a criar o seu mercado e a influenciar assim a regulamentação necessária à sua atividade. Também a Airbnb está a fazer o mesmo de forma proativa, atuando, em alguns estados norte--americanos, em parceria com os governos para garantir que se cobram e se pagam todos os impostos relativos à sua atividade. A Google, ao tentar entrar no mercado da internet na China, está a apoiar a regulamentação desta atividade junto do governo chinês. "Há todo um conjunto de novos negócios em que são as próprias empresas a apoiar e a liderar a regulamentação e a trabalhar em verdadeira parceria com os governos. As empresas que o fizerem estão no centro dos ecossistemas, estão na linha da frente, enquanto aquelas que não acompanharem a mudança tenderão a ficar para trás", afirma Rui Barros.

Rui Barros explica que também os próprios consumidores vão poder definir as regras dos novos negócios. Por exemplo, a Airbnb teve recentemente um problema nos Estados Unidos, pois verificou-se que pessoas de determinada religião ou etnia não conseguiam fazer a sua reserva em alguns alojamentos. Isso criou um conjunto de reclamações por parte dos utilizadores, o que obrigou a empresa a criar um procedimento interno para garantir que não haveria discriminação no acesso aos seus serviços. Uma coisa é certa, as empresas do futuro terão de ouvir mais os seus consumidores, para garantir boas experiências, pois serão estas que as irão levar a distinguir-se da concorrência. "Ou seja, a empresa está a definir a sua própria regulamentação em parceria com os seus consumidores. E isto não está a ser imposto pelos governos, mas sim pelas necessidades do próprio negócio", explica.

(Dinheiro Vivo | 08/04/2017)