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Podemos ser empreendedores numa multinacional

 

Joana Cunha, Consultant na Accenture Digital fala sobre Inteligência Artificial e sobre o ADN da sua jovem geração numa entrevista Executiva.

Chegou à Accenture há sete anos, depois da licenciatura em Economia pela Universidade de Évora, um mestrado em Estratégia e Empreendedorismo na Universidade Católica e de ter passado por um estágio de verão numa empresa de telecomunicações, onde a aconselharam a concorrer à empresa e a apostar numa carreira em consultoria. Desde então, Joana Nabais Cunha, 30 anos, tem assumido diversos projetos ligados ao mundo digital, nomeadamente consultoria em marketing digital — área em que se especializou posteriormente numa pós-graduação da Nova IMS. Em 2016, lançaram-lhe um novo desafio: ser consultora da Accenture Interactive para a inteligência artificial. Descobriu um novo mundo cheio de soluções tecnológicas apaixonantes, que obrigam a uma investigação constante, sempre com as necessidades do cliente no centro do processo. É ela quem acaba por ser a agente de ligação entre as startups e o mundo empresarial, num caminho onde todos devem sair a ganhar. Joana falou-nos dos seus desafios profissionais e sobre o perfil e expectativas da geração de jovens profissionais millennial a que pertence.

Formou-se em Gestão, mas hoje dedica-se a projetos na área digital. Como começou a trabalhar neste ramo?

Foi há cerca de dois anos, quando a revolução digital começou a ganhar uma proporção maior e a Accenture decidiu criar esta área. Antes, trabalhava em consultoria e fiz um projeto de telecomunicações, relacionado com soluções de self-care. Comecei a adorar o mundo digital e a possibilidade de ver materializado e a funcionar aquilo que estamos a conceptualizar — a meu ver, a grande diferença entre a consultoria pura, no sentido mais tradicional, e a área digital. Deixei a consultoria, voltei a estudar com uma pós-graduação em Marketing Digital e foquei a minha carreira mais neste setor. Uma das coisas mais interessantes foi reunir algumas startups do ecossistema nacional e trazê-las até ao escritório, perceber o que estão a fazer e que soluções teriam para os nossos clientes.

E hoje, quais são as principais funções e responsabilidades?

Neste momento, e ao longo deste ano, tenho-me dedicado muito ao mundo da inteligência artificial. Foi-me colocado o desafio de encontrar soluções nesta área e trazê-las para as operações da Accenture, encontrar alguma correspondência entre elas e os serviços que oferecemos aos nossos clientes, começar a dinamizar projetos piloto. Uma das coisas mais interessantes foi reunir algumas startups do ecossistema nacional e trazê-las até ao escritório, perceber o que estão a fazer e que soluções teriam para os nossos clientes. Reconhecemos que não é só dentro de casa que existe conhecimento; existem startups muito interessantes, nascidas graças a iniciativas como o Web Summit, que serviu para pôr Lisboa no mapa do mundo digital e puxou muito por este ecossistema. Neste momento temos um conjunto de projetos piloto a decorrer, no âmbito da inteligência artificial, pelos quais sou responsável.

Então, faz a ligação entre dois mundos: por um lado, investiga o que há de novo em matéria de IA; por outro, está em contacto direto com o cliente e a sua experiência…

Sim, e muitas vezes são coisas que o cliente nem sabia que existiam ou que poderiam fazer sentido para o seu negócio. Temos uma função de descoberta e exploração nos negócios. As soluções que queremos não têm que ser só tecnologicamente disruptivas; têm que fazer sentido para a experiência de interação que queremos proporcionar aos clientes. Neste tema da inteligência artificial, muita coisa ainda está a ser desenvolvida. Uma componente muito interessante do meu trabalho dia a dia é trabalhar lado a lado com uma equipa de tecnologia.

Há startups nacionais com soluções interessantes no campo da inteligência artificial?

Extremamente interessantes. Estamos a trabalhar com algumas startups de quem somos parceiros. Têm algumas valências que poderíamos desenvolver dentro da Accenture, mas optámos por trazer o conhecimento deles para a nossa empresa e, conjuntamente, criar soluções para o mercado.

Temos que ser capazes de acompanhar as mudanças que estão a acontecer e sermos muito rápidos na integração de todas estas novidades para dentro dos negócios.

O que a apaixonou na inteligência artificial?

O facto de ser algo que sabemos que vai revolucionar o futuro dos negócios e a forma como trabalhamos. Por outro lado, ainda não sabemos exatamente como isso vai acontecer. É esse caminho de perceber como pode ter utilidade e relevância para os negócios que é interessante trabalhar.

Que características são essenciais para ser boa profissional nessa área?

Temos que ser capazes de acompanhar as mudanças que estão a acontecer e sermos muito rápidos na integração de todas estas novidades para dentro dos negócios. O sentido de curiosidade é muito importante. Também importa ter uma característica empreendedora — até porque não somos só empreendedores quando criamos a nossa própria empresa; podemos sê-lo dentro de uma grande multinacional com a nossa vontade de fazer diferente, caso contrário iremos sempre pelas soluções mais óbvias ou que já estão implementadas internamente. Há que ter vontade de trabalhar numa nova área que é a materialização do futuro. Depois, há características associadas às próprias soluções que estamos a desenvolver. Por exemplo, estamos a fazer chatbots em que é preciso ter capacidade de treino linguístico, porque treinamos ferramentas para interagirem com os clientes finais. Esta é uma competência que à partida não pensava que ia utilizar na Accenture.

A sua formação é em Economia e Gestão. Teve que aprender muita coisa, muito depressa, sobre este tema?

Acho que é um processo exploratório: ouvimos falar de determinada tecnologia e vamos à descoberta. Depois, rapidamente temos que tomar uma decisão. Por vezes, as tecnologias ainda estão em preview, ou seja, ainda nem os próprios fornecedores as finalizaram e nós já estamos a testá-las e a querer utilizá-las. Diria que o entrosamento neste meio não é difícil. Vivemos numa era em que não podemos temer a tecnologia; esta deve ser encarada como uma ferramenta para nos capacitar para o que queremos fazer. Trabalhamos em equipa, tenho colegas com aptidões mais técnicas do que eu e valho-me da ajuda deles se não conseguir chegar lá sozinha.

Temos que estar sempre em permanente atualização de conhecimento. Se queremos focar a carreira num determinado tema, temos que estar suportados por algum background.

O que a levou a procurar uma especialização em marketing digital & analytics? Sente que a formação académica a ajudou a conseguir as ferramentas de que precisa hoje, profissionalmente?

Temos que estar sempre em permanente atualização de conhecimento e, se eu pudesse, todos os anos estava a estudar, mas não é fácil. Mas se queremos focar ou afunilar a nossa carreira num determinado tema, temos que estar suportados por algum background. Senti que o mestrado em gestão que fiz, muito genérico, já não chegava para aquilo que ambicionava e foi nesse sentido que resolvi aprofundar o tema do marketing digital e fazer essa pós-graduação. Quando vamos à procura de formação, enquanto executivos, ela já tem que ser muito mais prática; temos que sentir que sai dos conceitos teóricos para o mundo real. Nesse sentido acho que a pós-graduação me ajudou bastante. Penso que as universidades também estão a fazer um esforço no sentido de terem cursos mais aplicados à realidade das empresas.

Diz-se que esta é a geração de jovens profissionais mais preparados que chega ao mercado de trabalho. Nota essa preparação ou sede de formação nos seus colegas millennial?

Sinto que os analistas que chegam hoje à Accenture, que começam agora o seu percurso, vêm já bastante mais capacitados ao nível de certas ferramentas, até mesmo na forma como estão mais à vontade a apresentar ou falar em público. Estão mais habituados à exposição e muito confiantes com as ferramentas. Sinto que estes novos profissionais gostam de contribuir para um todo — perguntam sempre o porquê e relevância dos projetos que estamos a fazer, o que significa que há uma grande preocupação pelo entendimento daquilo que fazem. E estão sempre à procura de experiências. Noto que já não se motivam com um pacote mais tradicional de benefícios; aquilo que querem é ter experiências que os motivem diariamente a fazerem coisas diferentes e pensarem em novas soluções.

[Os millennials] valorizam um local de trabalho mais inspirador e humano e aderem a todo o tipo de projetos com uma forte componente social.

Quais os pontos fortes dos profissionais da geração millennial, a seu ver?

São bastante rápidos, como o próprio mundo em que vivem, e gostam de fazer coisas que tenham um propósito e significado. Chegam mais bem preparados, de alguma forma, da sua formação académica.

O que valorizam mais na relação com as empresas para quem trabalham? E as empresas, estão a conseguir ir de encontro a essas expectativas para captarem jovem talento?

A expectativa deles, quando chegam às empresas, é que estas sejam completamente ágeis e digitais. Nós próprios nos adaptámos e hoje já utilizamos outro tipo de ferramentas e formas de trabalho diferentes para estarmos mais alinhados com novas equipas que estão a chegar. Outro esforço que é feito é o de tornar o local de trabalho num sítio mais inspirador e humano, é algo que os millennials valorizam imenso, bem como um dress code mais informal. Há um conjunto de adaptações que têm que ser feitas, mas que, pelo menos do lado da Accenture, sinto que estão a existir. Também temos uma área de corporate citizenship e, tipicamente, vê-se uma grande adesão a todo o tipo de projetos com uma forte componente social, por parte deles. Gostam de saber que a empresa se envolve em causas, que têm os seus valores e que eles fazem parte desses valores e projetos.

Que conselhos daria a uma jovem que queira vingar profissionalmente, quando chega a uma grande empresa?

O importante é sermos iguais a nós próprios, ou seja, trazermos a nossa personalidade para dentro daquilo que respeita à empresa e pôr um cunho pessoal em tudo o que fazemos. Importa também ter sempre um espírito curioso e atento ao que se está a passar. A nossa carreira tem que ser muito impulsionada por nós próprios e por aquilo que ambicionamos fazer. Mas, se formos boas pessoas, seremos bons profissionais. A Accenture tem um ADN muito próprio e sedimentado nos seus valores fundamentais. Acho que passa por cada um juntar-se a esse mote, tentar dar o seu melhor e puxar as equipas para se enquadrarem também nesse ADN.

Na área da inteligência artificial, por exemplo, que é uma forte aposta da empresa, sentimos que estamos a preparar melhor esta empresa para o futuro e a deixá-la mais capacitada.

Dentro desse conjunto de valores de que fala, quais são aqueles com que mais se identifica?

Um dos valores de que gosto muito é o stewardship, ou seja, deixar a empresa melhor ou mais sólida aos nossos sucessores do que encontrámos ou nos foi passada por quem nos antecedeu. Na área da inteligência artificial, por exemplo, que é uma forte aposta da empresa, sentimos que estamos a preparar melhor esta empresa para o futuro e a deixá-la mais capacitada.

Esteve envolvida em projetos de voluntariado para a literacia financeira, na Junior Achievement Portugal, e de empreendedorismo, na ilha do Príncipe. Como avalia essas experiências?

O ano passado tirei um mês e fui fazer voluntariado para a Ilha do Príncipe para dinamizar a 2ª edição do concurso de empreendedorismo, colocando em prática as minhas valências de consultoria e gestão de projetos, na ótica de ajudar empreendedores. Estar em contacto com pessoas que, apesar das imensas dificuldades, têm um espírito empreendedor e querem fazer as coisas de forma diferente é, de facto, uma experiência única. Já nos programas da Junior Achievement Portugal (JAP), que é uma parceira da Accenture, participo todos os anos desde que entrei na empresa. Gosto bastante. Capacitamos os alunos para terem ideias de negócio através de aulas nas escolas ou sendo júris do concurso, como me aconteceu este ano. É muito engraçado porque, quanto mais jovens são, menos formatados estão e a mente está mais disposta a criar sem regras.

E quando não está a trabalhar, como recarrega baterias?

Gosto muito do contacto com a natureza, do privilégio que é ler e, basicamente, de descansar. No meu tempo livre gosto de fazer coisas que não tenham nada a ver com a atividade profissional.

Executiva | 19/07/2017 | Joana Nabais Cunha